A INSPIRAÇÃO DO ÚTERO
por Joana Coccarelli
Fotos por Lisa Ismael

“NO GRANDE CORPO CÓSMICO A GERAÇÃO, O INÍCIO”
Eu vi nascer a performance multimídia Útero. Seus pais, artistas coletivos do núcleo InsPira, deram a luz em agosto passado no Festival Internacional de Linguagem Eletrônica (FILE), em São Paulo.

“O ÚTERO UNIVERSAL DA EXISTÊNCIA. AMOR INCONDICIONAL. ONDAS QUE NAVEGAM CONSCIENTEMENTE NO ESPAÇO-TEMPO AUTO-REFERENCIAL”
Nos grandes telões que cobriam as paredes do salão do evento o VJ Alexis projetava imagens de referência intra-uterina, desde ultra-sonografias de fetos até um amniótico oceano repleto de algas verdes. Água primordial.

”ÚTERO DA VIDA. CANAL DE ENTRADA, VEÍCULO, TRANSPORTE, MÁQUINA DO TEMPO PARA A MATERIALIZAÇÃO DE CORPOS SUTIS NO CORPO DENSO DA TRIDIMENSIONALIDADE, O MEIO”
Um extenso túnel umbilical de náilon branco se desdobrou em frente aos telões para a platéia surpreendida. Um casal de bailarinos dança, rasteja, flexiona e contrai os músculos dentro dele.
Uma atriz caminha ao redor. As mangas de sua roupa fazem alusão ao cordão umbilical, as tiras vermelhas da saia são hímens menstruais.
Uma segunda atriz invade o túnel com uma lanterna e dá a luz à latência dos acontecimentos.

”OLHOS, OUVIDOS, MÃOS, PÉS, CÉREBRO, ÓRGÃOS, MÚSCULOS, OSSOS, CÉLULAS, TECIDOS, FLUIDOS, MOVIMENTO... CORPO ELETRÔNICO, CONSCIÊNCIA MULTIDIMENSIONAL. ANCESTRALIDADE NA CONTEMPORANEIDADE”
A gênese hindu decreta “Nada Brahma”, “o universo é som”. Se os átomos vibram e vibração é som, toda matéria é música. Luciano Sallun e Aquiles Ghirelli executam a trilha sonora na hora e complementam os organismos denso e sutil da performance.

“PASSADO-PRESENTE-FUTURO ENTRELAÇADOS. CAMINHO SÓ DE IDA PARA A VOLTA AO ÚTERO. O ETERNO RETORNO, O FIM. RENASCIMENTO, TRANSCENDÊNCIA, O RECOMEÇO”
Esta foi a estréia de Útero no mundo. Para se desenvolver, as células artísticas do InsPira mantiveram-se na quadridimensionalidade in uterus, pré tempo-espaço newtoniano. Antes de nascer estamos nas mais avançadas condições metafísicas, quem diria.
A videomaker Marta Madalon, coordenadora da performance, conta mais sobre este movimento retrógrado avant-garde:

ZUVUYA.NET: O princípio do Útero, a célula-mãe, é você, Marta Madalon. O que exatamente gerou em você, em particular, a idéia da performance?

MARTA MADALON: Há dez anos, quando estava concluindo a faculdade de Comunicação Social, sem saber eu buscava um meio de me expressar. Gostava da televisão como um veículo de comunicação com a sociedade, mas já naquela época questionava a forma, o conteúdo e o propósito desta e de outras mídias de grande alcance popular (...)
Acredito que a comunicação tem um papel extremamente importante na nossa jornada de evolução na Terra. A comunicação, se realizada com um propósito verdadeiro, sagrado, pode ser um poderoso instrumento de cura coletiva. Da mesma forma que a televisão tem o poder de capturar a mente e manter o homem em estado de coma, fazendo com que o indivíduo acredite numa realidade projetada, ela pode agir para ativar outras possíveis realidades e despertar consciências para suas verdadeiras identidades. O resultado disso pode ser uma explosão de potência e criação...
De uma forma ou de outra, a imagem sempre esteve presente na minha vida: além de trabalhar em televisão, sou apaixonada por cinema e vídeo. A mim interessa muito conhecer o ser humano, suas histórias, a maneira com que cada indivíduo interpreta e se relaciona com a vida.

Para onde olho vejo uma luz, uma forma, um movimento, uma composição, uma mensagem subliminar, um poema visual de cores, sensações, idéias, pensamentos, vibrações... Descobri então que poderia usar minha experiência como produtora, roteirista e editora de televisão de uma forma menos linear, mais abstrata, incorporando várias formas de comunicação e expressão artística para explorar os sentidos. Acredito que através do sensorial é possível criar um canal universal de comunicação não-verbal e falar uma única língua, aquela que aciona códigos de acesso à fonte, à origem, aos registros, às memórias...

Busco através da palavra não dita as manifestações que do presente nos levam ao mesmo tempo para o passado e para o futuro. Foi assim que surgiu a idéia do Projeto Útero, uma performance multimídia experimental que se apropria da arte para expressar o imaterial.

ZN: O quanto de Útero foi influenciado pela sua condição feminina? Você acha que se um homem tivesse idealizado a performance, teria ficado igual?

MM: É engraçado... acho que o fato de ser mulher e carregar um útero dentro do meu corpo tem uma conotação especial para a criação da performance, sim. Assumimos nossa forma física dentro da água quente do útero, nosso abrigo que nos protege e alimenta até estarmos prontos para a vida na tridimensionalidade. As águas estão relacionadas às emoções e nós, mulheres, carregamos no ventre os ovos que os homens fertilizam, somos as que concebem
e geram. Também somos as que recolhem e acumulam muita coisa dentro de nós, trazendo à luz tudo o que está armazenado lá dentro. É como se fôssemos criadas para reproduzir aqui, na forma física da matéria, o que está acontecendo o tempo todo em outras dimensões. Vejo que a relação das mulheres com o útero é mais visceral, criativa; a dos homens, em geral, é mais biológica. Mas não dá para saber como teria ficado se um homem tivesse idealizado.

ZN: Como eram as reuniões dos integrantes da InsPira?

MM: As primeiras reuniões aconteceram com o Sallun e o Aquiles, músicos do Pedra Branca, que estavam conectados comigo já há algum tempo. Eram trocas de idéias sobre nossas impressões, sensações uterinas, esboçando já uma forma de apresentação para o FILE, o Festival Internacional de Linguagem Eletrônica 2003, onde Útero foi encenado pela primeira vez.

Útero ficou em gestação por alguns meses, até que comecei a identificar quem seriam as outras pessoas que completariam o grupo. Para mim estava claro que, além do aspecto profissional, o mais importante para a materialização do projeto seriam os laços de afeto com os integrantes desta que viria a ser a primeira formação oficial da InsPira, afinal, todos ficariam "grávidos". Foi assim que incorporei o trabalho da Nani Brisque e do Rodrigo Machado, ambos artistas plásticos e cenógrafos, e também da Samanta Barros, que é bailarina e performer; George Sander Urbano, o outro perfomer, e a cantora Marilaine Boffo chegaram depois. O Vj Alexis foi integrado no grupo enquanto ainda estávamos em processo de criação.
Nossos encontros foram muito intensos e produtivos, pois não tínhamos um método, um modelo. O processo todo foi e continua sendo orgânico. Existiam as trocas coletivas e depois cada um seguia na sua pesquisa individual para voltar com novas referências.

ZN: Fale um pouco de Útero na Earthdance 2003.

MM: Foi a segunda apresentação do projeto. Útero ganhou uma nova versão, com novos elementos incorporados à dinâmica da performance, como, por exemplo, o espaço interno do chill-out, que era totalmente uterino, para o “nascimento” da performance, e a criação de um espaço externo ritualístico para o desenvolvimento da caminhada por dentro do cordão umbilical cenográfico. Nas imagens projetadas, reproduzi no telão o que acontecia dentro do túnel umbilical, porém com efeito digital que distorcia os corpos, transformado-os às vezes em luz, em formas ou apenas em movimentos.

ZN: Você gostaria de adicionar algum outro tipo de expressão artística à performance, ou a considera pronta?

MM: A Inspira e o Projeto Útero são abertos. Vamos dar continuidade ao processo de criação, pois entendo que a performance ainda está em estado bruto, e temos que lapidá-la, desenvolver a linguagem, o conceito, ousar, incorporar novos elementos, novas parcerias. Temos que investir na estrutura tecnológica... enfim, há muito por fazer e acontecer ainda. Espero que a performance nunca fique pronta!

RO: Você diz que a performance segue “expressões não-lineares”. O que são elas?

MM: A física quântica explica que, durante o salto quântico, apesar de não ser possível calcular a partir do ponto inicial onde o elétron vai reaparecer no ponto final da sua “viagem”, sua trajetória é linear. Durante essa caminhada, o percurso do elétron está sujeito a várias probabilidades que podem levá-lo para um determinado ponto ou outro; logo, não é possível determinar o ponto final do salto, o que significa que a caminhada é não-linear.

Acredito que maioria das pessoas nunca parou para pensar na relação entre o comportamento do elétron e a vida... e nem que nossa matéria-prima é luz, e que nossos corpos são conglomerados de elétrons - a tecnologia orgânica mais perfeita que existe. Se o ser humano observasse melhor o comportamento do elétron compreenderia muito mais a dinâmica da existência.

Quando falo que busco expressões não-lineares refiro-me à forma. Quero ajudar as pessoas a darem seus saltos quânticos e, para isto, preciso comunicar algo. Esta é a proposta linear da trajetória, mas oferecendo a elas ferramentas e caminhos mais subjetivos, que não estejam decodificados por padrões mentais e emocionais. Então busco me expressar através de formas que não seguem uma linearidade... não me interessa o que está dentro ou fora, mas o que está entre; não o que esta na frente, atrás ou do lado, mas o que está entre...

ZN: Que pensamentos e sentimentos Útero quer suscitar no público?

MM: O Projeto Útero é um convite ao mergulho de volta para o lugar de onde todos vieram, do macro útero cósmico ao micro útero humano, uma interiorização, um toque para a busca da essência, uma porta aberta para o reencontro consigo mesmo, para o auto-conhecimento, para a descoberta de Si, a descoberta do Outro, a constatação de que somos muitos outros e o reconhecimento de que somos apenas Um.

ZN: Quais as ambições da performance em termos de trajetória cultural?

MM: Nomadismo, movimento, fluxo, transmutação... tudo isso faz parte da trajetória da Inspira, do Útero. Quem sabe onde, como e quando será o próximo salto quântico?

Entrevista por Joana Coccarelli
Fotos por
Lisa Ismael



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