Na
tribo dos índios Ypy Poty ninguém ouviu falar numa celebração
mais esplêndida do que aquela. Nunca, jamais, em tempo algum. Ao
longo de quatro sóis e quatro luas os caciques do Boom Festival
e Daime Tribe trabalharam a favor de divinos pajés psicodélicos
que se revezavam num
Dali
saíram sagrados trovões de transe, poderosos a ponto de,
junto com os quatro elementos da Natureza, purificar todas as almas presentes.
O fogo do sol estimulava a ação; a firmeza da terra sustentava
os movimentos; o vaporoso ar transmitia as vibrações; e
a fluida água do mar renovava os corpos. Os próprios índios, a maior parte experiente de guerra, surpreenderam-se com todo aquele poder adquirido, e o tomaram para si, e fizeram suas feitiçarias pessoais, e as aplicaram em suas vidas. Todos já desarmaram suas ocas e retornaram ao mundo dos cara-pálidas mas, definitivamente, não tiraram seus cocares. Não estamos falando de uma festa, estamos falando de uma experiência!!!
Welcome
to the Jungle quando armamos a barraca de camping, numa ansiosa disputa
por uma árvore que dê boa sombra. O instinto competitivo
não nos Welcome
to the Jungle quando livramos nossos corpos de roupas pesadas, declaramos
iindefinidamente descalços os nossos pés e percorremos,
maravilhados, distâncias de areia que brilha como glitter e braçadas
e oceano tão verde que parece uma floresta liquefeita. E
Welcome to the Jungle, mais do que nunca, quando pisamos pela primeira
vez na pista de trance, e toda uma saudável selvageria se desprende
da nossa dança por todos os dias e todas as noites.
Os personagens eram infinitos: a menina parecida com as indianas de embalagens de incenso, o alemão que insistia que o paraíso raver é aqui, Mr. e Ms. Blue em bárbara sintonia digital, o canadense cuja dança remete aos hieróglifos egípcios, o ascendente DJ carioca atento às manobras das pick-ups de colegas consagrados, o australiano detentor do Troféu-Simpatia da temporada, a senhora portenha que bombava sorridente, o níveo britânico que se perdia pelas morenas... melhores amigos foram declarados, casos foram sepultados, fantasias se concretizaram, esforços foram premiados... este foi o dia de todas as notas, do zero ao dez.
Era
hora de esticar as pernas, pedir uma massagem ao desconhecido mais próximo,
falar de astrologia, contemplar passarinhos, relaxar-cochilar-dormir,
fazer mais um punhado de amigos, examinar as bolhas dos pés, louvar
a Deus por toda a felicidade, exterminar a larica, improvisar passos lânguidos
para a música.... e sair de lá correndo atrás dos
camburões da polícia, que acabavam de prender seis ravers
estrangeiros.
A notícia foi dada ao microfone por um membro da equipe do Boom Festival, e uma multidão indignada alcançou os automóveis e sentou-se na frente de cada um deles, enquanto outros discutiam com aquilo que chamam de autoridades locais. As atitudes dos celebrantes eram mais pacíficas do que suas palavras de ordem, num claro limite entre consciência e impulso. Os detidos só foram liberados mais tarde, na delegacia.
TERCEIRO DIA: ABRIRAM AS JAULAS DE NOSSAS SELVAS PSICOLÓGICAS
O mínimo de racionalidade foi recobrado quando espalhou-se, discretamente, o boato de nova visita da polícia à festa. Uma regulada euforia foi mantida até o momento em que os mesmos camburões do dia anterior apontaram na areia da praia... e então as pessoas saíram enlouquecidas da pista em direção à polícia, correndo novamente atrás dos automóveis, vaiando em altíssimo e bom som, muitos cuspindo nos pneus e todos pulando, dançando, rindo e gritando sem parar de girar ao redor dos pobres ratos de farda, que só observavam, incrédulos e sem mover um músculo! Em seus rostos estavam o constrangimento da hipocrisia flagrante e o ridículo da ameaça que não pode se concretizar. Toda a gente se abraçava em absoluto auge e satisfação por manifestar livremente seu repúdio àquela encenação furada de autoridade... e fez-se o espetáculo da democrática - e debochada! - militância do bem! QUARTO
DIA: ADEUS AO PAÍS DAS MARAVILHAS
Se o dia anterior foi semelhante a uma mata-mundi, a última manhã de festa poderia ser contada em versão "Alice no País das Maravilhas". Sob a sombra das árvores viajavam gordinhos Tweedle-Dees, majestosas Rainhas de Copas e acelerados Coelhos Brancos; gargalhando sobre cangas estavam amigos paulistanos, cujo grupo se assemelhava ao do Chapeleiro Maluco; nas areias uma Alice catava conchinhas onde um dia moraram ostras; e em minha mão direita passeava uma centopéia vermelha, idêntica à do desenho de Walt Disney. Quando a levei para dançar ela circundou meu dedo médio como um anel, atirou-se ao chão e seguiu para o próximo tufo de gramado. Tentava me dizer que era, também, minha hora de voltar para casa. Ypy
Poty foi tudo isso, e também um efervecente casulo de transformações.
Hoje cada um de nós tenta Enquanto isso, fingimos que o mundo sério tem algo a nos acrescentar.
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