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Na tribo dos índios Ypy Poty ninguém ouviu falar numa celebração mais esplêndida do que aquela. Nunca, jamais, em tempo algum. Ao longo de quatro sóis e quatro luas os caciques do Boom Festival e Daime Tribe trabalharam a favor de divinos pajés psicodélicos que se revezavam num
altar xamânico.



Dali saíram sagrados trovões de transe, poderosos a ponto de, junto com os quatro elementos da Natureza, purificar todas as almas presentes. O fogo do sol estimulava a ação; a firmeza da terra sustentava os movimentos; o vaporoso ar transmitia as vibrações; e a fluida água do mar renovava os corpos.

Os próprios índios, a maior parte experiente de guerra, surpreenderam-se com todo aquele poder adquirido, e o tomaram para si, e fizeram suas feitiçarias pessoais, e as aplicaram em suas vidas. Todos já desarmaram suas ocas e retornaram ao mundo dos cara-pálidas mas, definitivamente, não tiraram seus cocares.

Não estamos falando de uma festa, estamos falando de uma experiência!!!


PRIMEIRO DIA: WELCOME TO THE JUNGLE


Welcome to the Jungle quando entramos na Reserva Ecológica de Picinguaba, com verdes e azuis de saltar aos olhos e enternecer o coração. A gente pára para pensar por que diabos nos retemos tanto ao concreto cinza.

Welcome to the Jungle quando armamos a barraca de camping, numa ansiosa disputa por uma árvore que dê boa sombra. O instinto competitivo não nos
deixa perceber o risível da atitude, uma vez que o que não faltam são árvores!


Welcome to the Jungle quando livramos nossos corpos de roupas pesadas, declaramos iindefinidamente descalços os nossos pés e percorremos, maravilhados, distâncias de areia que brilha como glitter e braçadas e oceano tão verde que parece uma floresta liquefeita.

Welcome to the Jungle quando os relâmpagos desfiam o céu, a chuva despenca forte por cinco horas seguidas e, de dentro de seu iglu de náilon, tal qual um feto observando a arredondada placenta, medita-se acerca de quando o aguaceiro vai parar e a vida vai começar.

E Welcome to the Jungle, mais do que nunca, quando pisamos pela primeira vez na pista de trance, e toda uma saudável selvageria se desprende da nossa dança por todos os dias e todas as noites.
Amém.


SEGUNDO DIA: A HORA É ESSA


Testas de suor em ebulição, bailados profanos, música de psicoatividade desejosamente neurótica, mergulhos compulsivos no caldeirão de hedonismo da festa: domingo foi o último dia de Ypy Poty para mais da metade dos participantes, e poupar-se não era uma opção. Os ânimos estavam às alturas, desde a branda manhã até o fim das atividades da caixa de som, por volta das 16 horas. Todos aqueles índios, nativos ou estrangeiros, adquiriram pele vermelha, tamanho era o sorriso trincado do sol no céu.

 

Os personagens eram infinitos: a menina parecida com as indianas de embalagens de incenso, o alemão que insistia que o paraíso raver é aqui, Mr. e Ms. Blue em bárbara sintonia digital, o canadense cuja dança remete aos hieróglifos egípcios, o ascendente DJ carioca atento às manobras das pick-ups de colegas consagrados, o australiano detentor do Troféu-Simpatia da temporada, a senhora portenha que bombava sorridente, o níveo britânico que se perdia pelas morenas... melhores amigos foram declarados, casos foram sepultados, fantasias se concretizaram, esforços foram premiados... este foi o dia de todas as notas, do zero ao dez.



O que não se consolidou entre um pico de loucura trance e outro teve nova chance no irresistível Chill Out, onde a simplicidade de esteiras de palha, almofadas de veludo e mesinhas de madeira só atribuía ainda mais luxo a um já sedutor line-up (destaque para os Live PAs do The Chill Out Company e do Totem Brasil).



Era hora de esticar as pernas, pedir uma massagem ao desconhecido mais próximo, falar de astrologia, contemplar passarinhos, relaxar-cochilar-dormir, fazer mais um punhado de amigos, examinar as bolhas dos pés, louvar a Deus por toda a felicidade, exterminar a larica, improvisar passos lânguidos para a música.... e sair de lá correndo atrás dos camburões da polícia, que acabavam de prender seis ravers estrangeiros.



A notícia foi dada ao microfone por um membro da equipe do Boom Festival, e uma multidão indignada alcançou os automóveis e sentou-se na frente de cada um deles, enquanto outros discutiam com aquilo que chamam de autoridades locais. As atitudes dos celebrantes eram mais pacíficas do que suas palavras de ordem, num claro limite entre consciência e impulso. Os detidos só foram liberados mais tarde, na delegacia.


Para aplacar a ira de quem testemunhou a palhaçada institucional, a noite vestiu seu hipnótico broche de lua cheia. Os que preferiram atravessar a madrugada sob o céu aberto do Chill Out ao invés de tetos ou lonas refestelaram-se com o magnetismo que se derramou sobre as criaturas de sangue quente. Naquela noite todos estavam especialmente belos, criativos e empáticos...

 

 

TERCEIRO DIA: ABRIRAM AS JAULAS DE NOSSAS SELVAS PSICOLÓGICAS


Segunda-feira: início da segunda fase da festa. Aficcionados e desocupados remanesceram, e suas intimidades com a Natureza estavam tão assombrosas que, sem perceber, todos dançavam feito índios, ou como orixás num terreiro... eu disse todos. E quanto mais esquisito dançavam, quanto mais rústicas as passadas, quanto mais telúricos os gestuais, mais atraentes os corpos se tornavam, numa inversão total de valores. A cena era de uma rasgada extravagância... homens e mulheres com os pés diretamente na terra, pousando a mão na boca e cantando como nativos.


Mais do que os outros dias, o público fazia amor com os DJs nos lençóis do trance... a entrega era completa e refletia-se numa voluptuosa troca de eletricidade... Houve momentos de tanta intensidade subjetiva que imaginava-se que toda aquela gente estava prestes a se fundir numa só entidade, como uma esplêndida geléia de transcendência! Como se testemunhar tal fenômeno não fosse o suficiente, o público ainda enaltecia os DJs com aplausos e inúmeras reproduções de barulhinhos de pássaros e insetos... a vibração era indescritível! Àquela altura estabeleceu-se a nulidade das convenções sociais e o exercício de um latente instinto tribal. Foi o exato instante do desabrochar da flor primal que existe em cada um de nós... acabávamos de encontrar Ypy Poty!

Já era final de tarde quando a DJ Tati, a única moça do line-up iinteiro, assumiu o pódio psicodélico. Com seu set (e como a abertura da caixa de Pandora, a primeira mulher da mitologia grega) iniciou-se uma sucessão de acontecimentos de violenta carga holística, que muitos desconfiavam ser a afirmação dos pantanosos poderes femininos. Pela primeira vez em três dias nuvens carregadas debruçaram-se sobre as serras que recortam a paisagem e descarregaram suas águas sobre os ravers, que por isso acreditaram terem passado o dia fazendo a dança da chuva! Ao invés de controlar a alta voltagem dos participantes, as gotas só estimularam manifestações de adoração ao primitivo.

O mínimo de racionalidade foi recobrado quando espalhou-se, discretamente, o boato de nova visita da polícia à festa. Uma regulada euforia foi mantida até o momento em que os mesmos camburões do dia anterior apontaram na areia da praia... e então as pessoas saíram enlouquecidas da pista em direção à polícia, correndo novamente atrás dos automóveis, vaiando em altíssimo e bom som, muitos cuspindo nos pneus e todos pulando, dançando, rindo e gritando sem parar de girar ao redor dos pobres ratos de farda, que só observavam, incrédulos e sem mover um músculo! Em seus rostos estavam o constrangimento da hipocrisia flagrante e o ridículo da ameaça que não pode se concretizar. Toda a gente se abraçava em absoluto auge e satisfação por manifestar livremente seu repúdio àquela encenação furada de autoridade... e fez-se o espetáculo da democrática - e debochada! - militância do bem!

QUARTO DIA: ADEUS AO PAÍS DAS MARAVILHAS

O índice de mosquitos per capita quadruplicou no último dia de Ypy Poty: os vampirescos insetinhos se concentraram sobre a pequena parcela de celebrantes que ainda permanecia na praia de Ubatumirim, e foi o caos. Enquanto ainda havia humor, especulou-se sobre o destino dos que consumiam o sangue dos ravers: ou morrerão de overdose ou originarão uma geração mutante de mosquitos nucleares! Cretinices à parte, uma menina chegou a pedir assistência médica, pois seus pés incharam com a grande quantidade de picadas. E uma vez lambuzados de repelentes, foi possível fazer uma (deprimente) reflexão sobre o arrumar de malas, o desarmar de barracas e o retorno ao lar.

Se o dia anterior foi semelhante a uma mata-mundi, a última manhã de festa poderia ser contada em versão "Alice no País das Maravilhas". Sob a sombra das árvores viajavam gordinhos Tweedle-Dees, majestosas Rainhas de Copas e acelerados Coelhos Brancos; gargalhando sobre cangas estavam amigos paulistanos, cujo grupo se assemelhava ao do Chapeleiro Maluco; nas areias uma Alice catava conchinhas onde um dia moraram ostras; e em minha mão direita passeava uma centopéia vermelha, idêntica à do desenho de Walt Disney. Quando a levei para dançar ela circundou meu dedo médio como um anel, atirou-se ao chão e seguiu para o próximo tufo de gramado. Tentava me dizer que era, também, minha hora de voltar para casa.

Ypy Poty foi tudo isso, e também um efervecente casulo de transformações. Hoje cada um de nós tenta libertar-se de suas fibras,que são feitas de lembranças tão deliciosas que nos prendem dolorosamente ao passado. Em pouco tempo estaremos recuperados do choque da volta à civilização, e partiremos para o próximo grande gathering como as borboletas que devemos ser.

Enquanto isso, fingimos que o mundo sério tem algo a nos acrescentar.


Texto:
Joana Coccarelli / Eletronic Brasil
Fotos: Lisa & André @ Rave On

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