Southern Traverse'99
atletas ou malucos?



O Southern Traverse’99, uma dura corrida de aventura internacional de 5 dias non-stop, aconteceu no norte da ilha do sul, uma das regioes mais bonitas da Nova Zelandia. Essa foi a primeira vez em 9 anos que a corrida nao se realizou em Central Otago.

A decisao de mudar de regiao foi dificil para os organizadores. Muitos dos competidores disseram que nao iriam participar se a corrida mudasse de local, mas foi uma otima decisao que Geoff Hunt e Pascale Lorre tiveram, uma vez que uma enorme enchente devastou o sul do pais uma semana antes do inicio da corrida. No final, 50 times foram escritos, o maior numero dos ultimos 9 anos. Dentre eles times internacionais vindos da Australia, Canada, Czechoslovakia, Dinamarca, Inglaterra, Franca, Italia, Japao, Malasya, Africa do Sul, EUA e Brasil.

A dura corrida foi cosntituida de 67km de kaiake no mar, 290km de mountain bike, 80km de mountain trekking, 200m de rapel e uma sessao de aprox. 5hs de rafting. Star & Garter, time vencedor, completou a prova em 71.5 hs apos dormir apenas 2 ½ hs durante toda a corrida.

Durante a corrida, a beleza da natureza ajudou a compensar o esforco dos atletas. Os 450km de percursso passou pela costa do Parque Nacional de Able Tasman, e pelas montanhas e florestas dos parques de Kahurangi e Nelson. Uma area repleta de lagos e formacoes rochosas. Depois de uma escalada mortal ao topo do Monte Arthur, os competidores foram recompensados por uma visao de 360 graus dos parques e florestas. Uma outra sessao de trekking sobre o Monte Owen passou por uma incrivel area de limestone karst. Essa area atraiu recentemente o cineasta Peter Jackson que esta filmando a trilogia do ‘Senhor dos Aneis’ e Durante a previa da corrida Geoff avisou, “Se nesse ponto voces estiverem vendo duendes, nao se preocupem, voces nao estarao loucos”.

 Porque as pessoas fazem isso? Com certeza nao e pelo premio, uma vez que o time vencedor mal recebe o suficiente (R$4000) para cobrir as despesas de entrada para a corrida. Eles sao loucos? Nao, sao atletas de multi esporte que acreditam que o desafio e mais do que suficiente para faze-los competir. Apesar disso existem times como o Star & Garter e outros que entram para vencer enquanto uma grande parte participa com o objetivo de completar a prova e ainda times como “The Elvis” ou os “Aliens” que estao la por diversao (acredite ou nao). Muitos times voltam a cada ano para mais penitencia, inclusive competidores dos dois times brasileiros que competiram esse ano. E nao sao somente os jovens, Team Arrow com membros na faixa etaria dos 50 anos participa da corrida a 8 anos.

Preparo fisico, forca e durabilidade contam e muito, mas uma mente saudavel e racional e outra chave para o susseco. E muito importante conhecer seus parceiros, seus pontos fortes e fracos e saber se comunicar. Gisele Volpi Monte, capita do time brasileiro EMA light descobriu sobre a importancia de conhecer seu time ao ve-lo se desintegrar no segundo dia de competicao.

EMA Light era formado por 3 mulheres e 1 homen, Joao Lisboa. Nora Audra Defilippi e Karina Bacha com 21 anos eram as competidoras mais jovens do Southern Traverse. Esse estava sendo o primeiro ano de Gisele como capita e eu perguntei se isso significava grandes mudancas para ela.

Ela se recorda do ano anterior quando ela e um outro membro do time ficaram extremamente doentes durante a prova.

 “John Knight (capitao do time) tinha que nos tirar de la, um local onde a navegacao era super importante. Nos estavamos fracas mas tivemos que sair de la caminhando. Se eu pensar nisso, ser capita me assusta um pouco. Espero que nada aconteca, mas eu sou responsavel pela navegacao e se algo acontecer eu tenho que tirar meu time da robada. O capitao tem essa responsabilidade, mas meu time esta bem unido. Estamos subindo no mesmo barco, se ele afundar todo mundo afunda junto. Eles sabem dos riscos, mas eu ainda me sinto responsavel por todos.”

“Voce acha que essa responsabilidade vai afetar seu desempenho fisico durante a prova?”

“Nao, e so agora que estou um pouco ansiosa. Quero ver tudo bem preparado para que a corrida flua bem. Quando a corrida comecar e eu ver que tudo esta indo bem vou poder relaxar e curtir um pouco mais”.

A corrida comeca e depois de uma sessao de kayak num mar tranquilo, o EMA light chega em 32 lugar. O espirito do time estava alto e apos 56min de prova eles estavam em suas bicicletas a caminho da ingrime Takaka Hill, que os levaria ate o Cobb Reservoir. Uma sessao de bike prevista para 6 ½ hrs.

Em primeiro lugar estava o time local de Nelson, Star & Garter. Formado pelas celebridades de multi esporte Steve Gurney e Kathy Lynch e Nathan Faave and Aaron Prince, duas novas estrelas que comecam a brilhar, o time tinha cara de vencedor desde o inicio da prova. Vendo esse time pedalar a ingrime estrada para o Cobb reservoir nos fez pensar que os “nao tao experientes” estavam prestes a ter uma longa e dura jornada. Kathy vinha na frente, pondo pressao nos meninos o tempo todo e diminuindo de vez em quando para dar uma empurrada em Aaron, o mais novo do time.

Quando vimos o EMA light novamente, estava escuro e fazia frio. Karina estava mais adiante empurrando sua bicicleta e o humor ja era totalmente outro.

Um pouco desapontata, ela estava irritada com o numero de paradas que seu time vinha fazendo. Ja era aparente que Joao nao teria o preparo fisico necessario para essa aventura. Na sua opniao seria melhor se mover devagar do que nao se mover, mesmo porque os musculos comecam a esfriar. O EMA light finalizou a segunda etapa em 11hrs 10mins.

Enquanto isso, o EMA Brasil, formado por 4 homens ultravassou o EMA light e tomou a liberdade de dormir na area de transicao, ao final da enorme pedalada. Depois de algum tempo, os dois times partiram juntos na escuridao da noite para completar a proxima etapa que seria de mountain trekking.

A navegacao se tornou mais dificil por estar escuro mas o maior problema perecia ser o terreno escorregadio que levava a bacia de Ellis e foi nesse trecho que varios time sairam da corrida. Alistar Cross do time Horley’s teve que ser resgatado por helicoptero apos escorregar e deslocar o ombro. O resto do time continuou mas desistiu na transicao seguinte.

No posto de controle da bacia de Ellis, Steve Putnam do time Nomad sofre de dores abdominais e vomito causando o segundo resgate . O terceiro e ultimo resgate de helicoptero foi o de Alan Bishop do time Hastings e que tinha febre e dor de cabeca intensa.

Problemas de joelho, exaustao e desidratacao tiram outros 7 times antes do final dessa etapa e alguns seguem com apenas 3 integrantes, sem serem classificados mas com o objetivo de completar a prova.

EMA light completa o mountain trek em 20 hrs e 53 min. Ninguem disse que seria facil. Joao Lisboa desiste da prova ao chegar a conclusao de que o preparo fisico requerido esta bem acima do seu. As meninas mais jovens estao decepcionadas. Foi uma longa viagem e muito dinheiro para chegar ate a Nova Zelandia e participar da prova e o nivel de motivacao baixa. Elas ainda tem a chance de prosseguir sem classificacao e completar a prova , mas Karina parece estar com o tendao destendido. Gisele, Nora e Cesar (membro do suporte) montam nas bicicletas e continuam a prova mas Nora logo desiste e volta para a area de transicao. Gisele, com a intencao de terminar a prova segue em frente com Cesar e o time de alto astral, Alien.

Karina e Nora seguem de carro com a equipe de suporte para a proxima area de transicao e la decidem que querem continuar a prova, mas ja e muito tarde. Elas ja haviam decidido sair da competicao. Para sua decepcao Gisele e informada que nao podera continuar na prova sendo somente ela e Cesar. Um pequeno exemplo do quao importante e conhecer os integrantes de seu time, saber se comunicar e criar um objetivo em comum; acabar a corrida.

Para muitos dos times isso significa vitoria. Times como o EMA Brasil que apos grande esforco foi classificado e terminou um percursso mais curto da corrida em 142hr 44min. Os meninos perderam o limite de tempo para o rafting e a segunda etapa de trekking mas tiveram a satisfacao e gloria de cruzar a linha de chegada de uma prova extremamente dificil. Nas palavras de Alexandre Freitas, organizador da EMA no Brasil; “Uma puta prova com muitas ideias para a Expedicao Mata Atlantica no proximo ano”.

A chegada do time Cromwell, segundo a completar a prova em 88hr e 20min e outra historia incrivel de determinacao. Jim Cotter continuou ate o fim da prova apos escorregar no trekking da bacia de Ellis e ter um pedaco de madeira espetado fundo na batata da perna. Por sorte Clemar, um medico brasileiro que estava com os times da EMA limpou e costurou sua perna antes dele prosseguir para as proximas etapas.

As habilidades de Clemar tambem foram utilizadas quando Aidan, um neo-zelandes que participou da EMA’99 no Brasil descobriu que tinha trazido uma berne como souvenir. O verme brasileiro de 7mm foi mostrado com orgulho pelo kiwi e se tornou uma das historias mais faladas da corrida.

O terceiro lugar foi com certeza o mais disputado, com times desistindo, sendo ultrapassados e criando um resultado diferente em cada area de transicao. A posicao finalmente ficou para o time Ice Breaker que completou a prova 1hr e 24min apos o time Cromwell.

O time Untouchedworld.com tambem merece mencao por ser o unico time deste ano formado exclusivamente por mulheres e o primeiro em 9 anos de Southern Traverse a completar o percursso longo inteiro. O time chegou em 18 lugar apos 142hr e 14 min.

Alleged Athletes, neste tipo de prova pela primeira vez, terminou a prova em 17 e tinha uma equipe de suporte que mereceu o premio de “suporte do ano” pela sua imaginacao, bom humor e e claro suporte. As equipes de suporte na levam muita atencao mas qualquer atleta ira dizer que o time nao seria completo sem eles. Em um momento de emocao, enquanto as meninas do suporte do Alleged Athletes dava apoio moral as garotas do Untouchedworld.com, a mae de uma das atletas comeca a chorar e diz; “Me deixa tao feliz ver as pessoas dando apoio as minhas meninas”

Outro aspecto interessante dos competidores neo-zelandeses e a conexao com suas familias. Aaron Prince do time vencedor tinha sua mae competindo em outro time, a maioria dos membros do apoio do Untouchedworld.com eram seus pais e maes. Kate Callaghan contou com o apoio do filho enquanto o marido estava em outra competicao. Muitos dos competidores tinham os namorados/as como apoio e o time americano NOC/Perception era formado por dois casais. Uma grande parte dos neo-zelandeses crescem ao ar livre, praticando esporte como forma de diversao. Perece estar em seu sangue, parte do seu estilo de vida, e e provavelmente isso que contribui para que estejam entre os melhores atletas do mundo.

Geoff Hunt, diretor e criador da prova vinha organizando a prova sozinho ate 1995 quando conheceu Pascal Lorre, uma francesa que estava entao viajando pela Nova Zelandia. Ela acabou em Queenstown limpando um Hostel mas precisava de outra fonte de renda.

 “Tinha um anuncio que dizia – Pai procura baba para 2 criancas”, ela nos conta, “era Geoff e suas filhas. O resto e historia”.

 Ela sorri e nos conta – “Aquilo foi ridiculo, eu me apaixonei um guia do centro de esqui em Harris, voando em helicopteros etc…Um cara legal, com um sorriso charmoso…”

Com sua experiencia em marketing, Pascal viu que poderia ajudar Geoff com o Southern Traverse. “Eu comecei a ajuda-lo porque havia uma enorme pilha de correspondencia ainda fechada sobre a sua mesa”.

“No primeiro ano eu achei que a tarefa seria impossivel, eu nao sabia nada sobre o conceito da prova e aquilo me assustou. Eu nao sou esportista, minha ideia de exercicio era sentar em um café por 3 horas discutindo sobre a vida e o mundo com os amigos”.

“Em 3 meses eu deixer de ser baba e cozinheira para me tornar secretaria e gerente de marketing”, ela relembra rindo ainda mais.

“Me conte um pouco sobre seu papel/funcao na prova hoje em dia”

“Essa e uma boa pergunta. Nos nao temos muito dinheiro para investir e eu passo o ano inteiro trabalhando na prova. Procurando patrocinio, pesquisando, cuidando das financas…Um pouco de tudo”

“E Geoff? Qual e o papel dele?”

“Ele desenvolve o percursso e corre atras de patrocinio mas sou eu quem sabe onde esta o dinheiro” (risadas).

Mas nem tudo nessa historia e alegria, Pascale ajudou a fazer do Southern Traverse o sucesso que a prova e hoje em dia com sangue e suor.

“Foram 5 anos intensos, recompensador em muitos sentidos mas esse ano eu diminui meu ritmo. Quando eu conheci Geoff eu vi que o Southern Traverse precisava de ajuda e atencao. Eu sabia que tinha futuro e hoje eu vejo que estava certa mas ao mesmo tempo e uma tarefa estressante. Para ser honesta, eu nunca tinha trabalhado tao duro em toda a minha vida, eu dei tudo de mim. Minha experiencia, dinheiro, tido, e agora me sinto um pouco cansada.”

Quando o  Southern Traverse comecou em 1991, 22 times competiram, no ano seguinte o numero baixou para 16 e no proximo para 9. Apos conversar com Ron Anderson, que sempre apoiou as corridas de aventura, Geoff decidiu mudar a prova para times com 3 integrantes, levando em consideracao a pequena populacao da Nova Zelandia.

 “Geoff e famoso por seus percurssos dificeis”. Diz Pascal. “Eu acho que isso assustou muita gente nos primeiros anos. Ele e um atleta muito bom, com um alto nivel e desenvolve corridas nas quais ele gostaria de participar. Ele tinha que parar de pensar na elite e comecar a pensar em todos”.

Como atleta profissional Geoff diz: “Sendo um atleta de corrida de aventura eu sei o quanto um time pode fazer, e eu testo seus limites”.

“Era dificil para os grupos de apoio tambem” diz Pascale.”Tinahm algumas sessoes em que os atletas ianm fazer um trekking de 30km e os assistentes tinham que dirigir por 10 horas para encontra-los e assisti-los nas areas de transicao. Geoff nao tinha uma boa reputacao com as equipes de suporte e resolvemos que a prova teria que sofrer mudancas”.

“A corrida era mais dificil naquela epoca entao?” Eu pergunto.

“Nao, era provavelmente mais facil, mas era um conceito novo no mundo dos esportes. Os atletas tambem tiveram que aprender, e muito. Nao da para ser ninguem em um dia e se tornar um atleta de multi esporte no outro. Os neo-zelandeses tinham o preparo fisico mas nao a experiencia para esse tipo de prova. Algo que vem com o tempo”.

No comeco o Southern Traverse perdeu tinheiro. “So em 96 que conseguimos ganhar R$5500 no final da prova. Em 97 nos triplicamos os lucros e em 98 tinhamos R$45000 para ambos. Se for pensar sobre os ultimos 9 anos foi dinheiro perdido. E dificil encarar isso uma vez que nossa prova esta no alto nivel das corridas de aventura mas talvez seja isso que eu ache tao especial. Um monte de gente dando tudo o que tem simplesmente por paixao ao esporte”.

Para Pascale, a maior satisfacao e ver a prova acontecendo de uma maneira tranquila e organizada e ela se orgulha em dizer que este ano foi a melhor organizacao de todos os tempos.

“O meu desafio ha 5 anos atras era trazer o Southern Traverse a um outro nivel e sinto que consegui. Foi um grande desafio fazer isso estando a 27000km longe de casa, em um pais de lingua e cultura diferente, sem conhecer ninguem, cuidar de 2 criancas, ser organizadora da corrida e das finacas ao mesmo tempo. Essa foi a minha corrida pessoal, e finalmente conseguimos a atencao e reconhecimento da imprensa, empresas e esportista internacionais”.

“Tem uma unica coisa que eu gostaria mas nao sei se um dia vou ter…uma igualde com o homem que comecou tudo. E dinheiro” ,ela diz gargalhando, “isso seria otimo”

Para Pascale, todos envolvidos fazem com que o Southern traverse aconteca. Muitos dos oficiais trabalham como voluntarios ou ganham o minimo. Alguns vem ajudar porque sao amigos dos organizadores e tem uma paixao pelo esporte. “E uma atmosfera fantastica…como se fossemos uma grande familia” Ela finaliza.

Texto & fotos por
Lisa & Andre Ismael

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