Texto Joana Coccarelli  -  Fotos Lisa & Andre Ismael  -  Projeções Charles

 


Pedra Branca foi um índio tupi-guarani que continuou poderosa entidade de cura depois de morto. Quando Aquiles Ghirelli, integrante da banda homônima, nasceu, seu avô já tinha uma estátua do xamã no meio da sala. Foi feita a partir de um molde de gesso tirado do próprio corpo do velho Ghirelli, e portava lança, cocar de penas, colar de dente de onça e uma pedra branca na mão direita – tudo de verdade. Aquiles ainda se lembra daquela gente que procurava o avô mediúnico para se recuperar de enfermidades através de Pedra Branca.

Então você vai a um show e entende por que é que Pedra Branca, a banda, só aceita “psicodélico” ou “experimental” para definir o som que virou mito entre a fina flor raver. Uma incursão pelo chill-out agraciado é a revelação: espalhados sobre panos estampados, descansa um arsenal de instrumentos étnicos, mais alguns curiosos aparatos inventados pelos próprios músicos em sua ânsia em descobrir os timbres que se escondem em objetos improváveis. Descalços, sentados no chão, Luciano Sallun se alterna entre o árabe alaúde e a cítara magnífica, enquanto Aquiles se debruça sobre o aborígine didgeridoo, a tabla indiana ou suas poesias. Da mesma forma, mas munido de um headphone vermelho e pick-ups, João Ciriaco opera beats eletrônicos e insere samplers de discursos, rezas e trechos de filmes glauberianos. Ainda tem tempo para a tanpura indiana, o africano udu e chocalhos indígenas.

TRIPS MODAIS

É discretamente comentado, entre os connoisseurs da cultura ambient, o esvaziamento das pistas principais quando Pedra Branca desponta entre almofadas e esteiras. Desde suas primeiras apresentações em festivais eletrônicos, como é o caso da Cave 2002 e da Moon Pooja de Goa Gil, o terreiro trance deixou de ser a única terra prometida do despertar místico.

    

Antes de chegarem aos ouvidos da audiência, as composições da banda impressionam os plexos solares gerais, que são o verdadeiro órgão auditivo humano. Este é o segredo da sinestesia, fenômeno que decodifica as cores e as formas dos estados sutis. Através de uma miração, a faixa “Sol Brilhante”, por exemplo, apareceu para mim como um curvilíneo amarelo-claro de velozes feixes de dourado ofuscante – resultado da irresistível geometria alcalóide das músicas do grupo.

“A utilização de expansores da consciência exerce grande papel nos processos musical e espiritual, desde que utilizados como chave para a ativação de sabedorias adormecidas. As plantas de poder (ayahuasca) e os frutos sagrados (psilocibina) têm sido explorados, desde tempos imemoriais, pelas civilizações que muito contribuíram para o equilíbrio e expansão de conhecimentos na Terra. É essencial o resgate do culto livre e consciente dos mistérios universais que habitam nossa alma, não deixando este poder se incorporar ao hábito, pois é tênue a linha que separa a expansão do entorpecimento. O hábito nos esconde o gosto do novo, adormecendo os sentidos... e o sono da consciência é a última coisa que um buscador de si mesmo deve desejar”
- Aquiles

De modo que essa história de sinestesia não é prosa, mas transcendência aplicada. Porque pertencem aos códigos modais, as músicas possibilitam efetiva expansão consciencial. E não se engane: a despeito da variedade étnica dos instrumentos empregados, são tão verde-e-amarelas quanto a etérea alquimia do xamã Pedra Branca. Afinal, como João mesmo poderia sugerir através de um sampler da voz de Glauber Rocha, objeto de suas pesquisas, “O Brasil é a feijoada. O Brasil é onde se mistura tudo”.

Mas é preciso ser bem misturado – e neste quesito Sallun articula os ingredientes. Ao contrário da maior parte dos músicos, ele aprecia as atividades dentro do estúdio, seja para gravar um instrumento para uma das 13 faixas do primeiro álbum da banda, seja para tratar, através de plug-ins, as bases eletrônicas que cria para elas. Sobre o emprego de sintetizadores, é o porta-voz de uma idéia comum aos demais integrantes: “O eletrônico dá contemporaneidade ao som, mas isto não é o mais importante. O que realmente nos atrai é a diversidade de timbres que ele oferece. Os instrumentos que inventamos têm o mesmo propósito”. E os que não inventaram? “A cítara, o alaúde, a tanpura, o didgeridoo... todos eles refletem nossa ligação com o ancestral desterritorializado, que é o conceito central do Pedra Branca”, explica. Desde já a compilação “Batida Sossegada”, mixada pelo DJ Smurf, oferece, através da faixa “O Círculo”, uma amostra das atividades da banda em estúdio.


GÊNESE E MULTIFORMAÇÕES


Aquiles e Sallun se esbarraram pela primeira vez em 2001, numa festa em um sebo de livros. Sallun tinha acabado de comprar a cítara; Aquiles construía instrumentos e começava a tocar didgeridoo. Combinaram de se encontrar novamente para fazer improvisos musicais em parceria. A coisa cresceu e as circunstâncias pediram mais um integrante. Três DJs passaram pelo grupo antes de João. Um deles, Alfredo Bello, legou a idéia dos samplers, e ainda hoje se faz presente: está produzindo o CD da banda.

Há de se ter muito domínio sobre a própria arte para fincar a alcunha de “experimental” desde o início; no entanto, as recompensas são proporcionais à ousadia: em quase todas as apresentações, Pedra Branca acrescenta à sua formação original a participação especial de cantoras, percussionistas, trompetistas, poetas, bailarinas e VJs, atraídos pela chance de interagir livremente com a banda. Isto acontece tão pontualmente que arrisco dizer que, se você não viu um estranho juntar-se a ele no palco, ainda não teve uma experiência clássica sobre o grupo. A receptividade de Sallun, Aquiles e João para expressões paralelas é tão notória que, só nos últimos dois meses, uma dançarina contemporânea e um ator pegaram até mesmo os músicos desprevenidos com excêntricas performances-surpresa, desdobradas em diferentes ocasiões.

Se existisse um livro de visitas multimídia, Pedra Branca colecionaria as entoações de Pierina e Iara; as poesias do DJ Alquimix (aka InsPirado); as holografias da dançarina do ventre e hindu Zuzu Alvares e da bailarina contemporânea Nathalie; as projeções visuais de Marta Madalon; as percussões de Scott, Azeitona e Fernando; o trompete de Daniel Gralha; e a sobrenatural encenação de Silvio, que chegou a assustar os seguranças do III Festival de Inverno de Paranapiacaba ao subir no palco onde a banda tocava, sob ovação do público estarrecido.

Mas não é apenas por causa das ilustres participações que um show jamais é igual ao outro. A razão principal é o fato de Pedra Branca ser partidário da improvisação como poucas bandas o são. Nada é mecânico: a cada virada, os músicos deliberam sobre as variadas possibilidades acústicas que surgem, e as exploram ao sabor da imaginação. Estão inteiros, sensíveis uns aos outros e confiantes no resultado de suas experimentações individuais. Manejam os instrumentos com segurança, fecham os olhos para mergulhar no som; depois, se encaram estáticos, dissolvidos numa viagem profunda.

“DISTRAÍDOS VENCEREMOS”

Na contramão do nervosismo que artistas enfrentam sob os refletores, o trio sobe ao palco invariavelmente plácido; às vezes tanta tranqüilidade gera episódios hilários, como quando os rapazes se apresentaram de máscara e Sallun não notou que vestia a sua de cabeça para baixo. Frente às passagens pitorescas que salpicam a trajetória da banda, Aquiles clama: “distraídos venceremos!”, e assim, estranhamente, a Ordem Cósmica obedece. A história por trás de seu didgeridoo, ou “amplificador orgânico”, revela o por quê de toda essa fé no desfecho de situações bizarras: o instrumento foi encontrado por um amigo numa loja de artigos para decoração, cujos vendedores não faziam idéia de que se tratava de um artefato musical.

O resto das divertidas desventuras de Pedra Branca fica confinado no escuso claustro do cotidiano dos músicos, essas criaturas excêntricas. Sallun e João contam que durante dois meses Aquiles andava relapso em seus compromissos com a banda: esquecia instrumentos, chegava atrasado aos ensaios, andava preguiçoso e desatento. No entanto, na noite do eclipse total da lua que ocorreu em 15 de maio último, Aquiles adentrou energicamente a casa de Sallun avisando estar cheio de idéias e disposição para criar – o que, de fato, aconteceu. Desde então sua atuação junto aos parceiros se estabilizou dentro dos níveis aceitáveis a um canceriano lunar.

Mas Aquiles é apenas o mais obviamente distraído. Afinal, as teorias filosóficas que Sallun estuda, entre aulas e indigestos tratados, exigem grande capacidade de abstração dos aspectos idiossincráticos do mundo. Da mesma forma, a atenção que João dispensa na elaboração de receitas fúngicas para alimentar o devir ancestral não pode estar em outra parte. Com a distração própria do talento natural que deriva dessa matriz de três pontas, Pedra Branca vence na terra do sol.

     

Pedra Branca

 


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