Pedra Branca foi um índio tupi-guaran
i
que continuou poderosa entidade de cura depois de morto.
Quando Aquiles Ghirelli, integrante da banda homônima,
nasceu, seu avô já tinha uma estátua
do xamã no meio da sala. Foi feita a partir de um
molde de gesso tirado do próprio corpo do velho Ghirelli,
e portava lança, cocar de penas, colar de dente de
onça e uma pedra branca na mão direita –
tudo de verdade. Aquiles ainda se lembra daquela gente que
procurava o avô mediúnico para se recuperar
de enfermidades através de Pedra Branca.
Então
você vai a um show e entende por que é que
Pedra Branca,
a banda, só aceita “psicodélico”
ou “experimental” para definir o som que virou
mito entre a fina flor raver. Uma incursão pelo chill-out
agraciado é a revelação: espalhados
sobre panos estampados, descansa um arsenal de instrumentos
étnicos, mais alguns curiosos aparatos inventados
pelos próprios músicos em sua ânsia
em descobrir os timbres que se escondem em objetos improváveis.
Descalços, sentados no chão, Luciano Sallun
se alterna entre o árabe alaúde e a cítara
magnífica, enquanto Aquiles se debruça sobre
o aborígine didgeridoo, a tabla indiana ou suas poesias.
Da mesma forma, mas munido de um headphone vermelho e pick-ups,
João Ciriaco opera beats eletrônicos e insere
samplers de discursos, rezas e trechos de filmes glauberianos.
Ainda tem tempo para a tanpura indiana, o africano udu e
chocalhos indígenas.
TRIPS
MODAIS
É discretamente comentado, entre os connoisseurs
da cultura ambient, o esvaziamento das pistas principais
quando Pedra Branca desponta entre almofadas e esteiras.
Desde suas primeiras apresentações em festivais
eletrônicos, como é o caso da Cave 2002 e da
Moon Pooja de Goa Gil, o terreiro trance deixou de ser a
única terra prometida do despertar místico.

Antes
de chegarem aos ouvidos da audiência, as composições
da banda impressionam os plexos solares gerais, que são
o verdadeiro órgão auditivo humano. Este é
o segredo da sinestesia, fenômeno que decodifica as
cores e as formas dos estados sutis. Através de uma
miração, a faixa “Sol Brilhante”,
por exemplo, apareceu para mim como um curvilíneo
amarelo-claro de velozes feixes de dourado ofuscante –
resultado da irresistível geometria alcalóide
das músicas do grupo.
“A
utilização de expansores da consciência
exerce grande papel nos processos musical e espiritual,
desde que utilizados como chave para a ativação
de sabedorias adormecidas. As plantas de poder (ayahuasca)
e os frutos sagrados (psilocibina) têm sido explorados,
desde tempos imemoriais, pelas civilizações
que muito contribuíram para o equilíbrio e
expansão de conhecimentos na Terra. É essencial
o resgate do culto livre e consciente dos mistérios
universais que habitam nossa alma, não deixando este
poder se incorporar ao hábito, pois é tênue
a linha que separa a expansão do entorpecimento.
O hábito nos esconde o gosto do novo, adormecendo
os sentidos... e o sono da consciência é a
última coisa que um buscador de si mesmo deve desejar”
- Aquiles
De
modo que essa história de sinestesia não é
prosa, mas transcendência aplicada. Porque pertencem
aos códigos modais, as músicas possibilitam
efetiva expansão consciencial. E não se engane:
a despeito da variedade étnica dos instrumentos empregados,
são tão verde-e-amarelas quanto a etérea
alquimia do xamã Pedra Branca. Afinal, como João
mesmo poderia sugerir através de um sampler da voz
de Glauber Rocha, objeto de suas pesquisas, “O Brasil
é a feijoada. O Brasil é onde se mistura tudo”.
Mas
é preciso ser bem misturado – e neste quesito
Sallun articula os ingredientes. Ao contrário da
maior parte dos músicos, ele aprecia as atividades
dentro do estúdio, seja para gravar um instrumento
para uma das 13 faixas do primeiro álbum da banda,
seja para tratar, através de plug-ins, as bases eletrônicas
que cria para elas. Sobre o emprego de sintetizadores, é
o porta-voz de uma idéia comum aos demais integrantes:
“O eletrônico dá contemporaneidade ao
som, mas isto não é o mais importante. O que
realmente nos atrai é a diversidade de timbres que
ele oferece. Os instrumentos que inventamos têm o
mesmo propósito”. E os que não inventaram?
“A cítara, o alaúde, a tanpura, o didgeridoo...
todos eles refletem nossa ligação com o ancestral
desterritorializado, que é o conceito central do
Pedra Branca”, explica. Desde já a compilação
“Batida Sossegada”, mixada pelo DJ Smurf, oferece,
através da faixa “O Círculo”,
uma amostra das atividades da banda em estúdio.
GÊNESE E MULTIFORMAÇÕES
Aquiles e Sallun se esbarraram pela
primeira vez em 2001, numa festa em um sebo de livros. Sallun
tinha acabado de comprar a cítara; Aquiles construía
instrumentos e começava a tocar didgeridoo. Combinaram
de se encontrar novamente para fazer improvisos musicais
em parceria. A coisa cresceu e as circunstâncias pediram
mais um integrante. Três DJs passaram pelo grupo antes
de João. Um deles, Alfredo Bello, legou a idéia
dos samplers, e ainda hoje se faz presente: está
produzindo o CD da banda.
Há
de se ter muito domínio sobre a própria arte
para fincar a alcunha de “experimental” desde
o início; no entanto, as recompensas são proporcionais
à ousadia: em quase todas as apresentações,
Pedra Branca acrescenta à sua formação
original a participação especial de cantoras,
percussionistas, trompetistas, poetas, bailarinas e VJs,
atraídos pela chance de interagir livremente com
a banda. Isto acontece tão pontualmente que arrisco
dizer que, se você não viu um estranho juntar-se
a ele no palco, ainda não teve uma experiência
clássica sobre o grupo. A receptividade de Sallun,
Aquiles e João para expressões paralelas é
tão notória que, só nos últimos
dois meses, uma dançarina contemporânea e um
ator pegaram até mesmo os músicos desprevenidos
com excêntricas performances-surpresa, desdobradas
em diferentes ocasiões.
Se
existisse um livro de visitas multimídia, Pedra Branca
colecionaria as entoações de Pierina e Iara;
as poesias do DJ Alquimix (aka InsPirado); as holografias
da dançarina do ventre e hindu Zuzu Alvares e da
bailarina contemporânea Nathalie; as projeções
visuais de Marta Madalon; as percussões de Scott,
Azeitona e Fernando; o trompete de Daniel Gralha; e a sobrenatural
encenação de Silvio, que chegou a assustar
os seguranças do III Festival de Inverno de Paranapiacaba
ao subir no palco onde a banda tocava, sob ovação
do público estarrecido.
Mas
não é apenas por causa das ilustres participações
que um show jamais é igual ao outro.
A razão principal é o fato de Pedra Branca
ser partidário da improvisação como
poucas bandas o são. Nada é mecânico:
a cada virada, os músicos deliberam sobre as variadas
possibilidades acústicas que surgem, e as exploram
ao sabor da imaginação. Estão inteiros,
sensíveis uns aos outros e confiantes no resultado
de suas experimentações individuais. Manejam
os instrumentos com segurança, fecham os olhos para
mergulhar no som; depois, se encaram estáticos, dissolvidos
numa viagem profunda.
“DISTRAÍDOS
VENCEREMOS”
Na contramão do nervosismo que artistas enfrentam
sob os refletores, o trio sobe ao palco invariavelmente
plácido; às vezes tanta tranqüilidade
gera episódios hilários, como quando os rapazes
se apresentaram de máscara e Sallun não notou
que vestia a sua de cabeça para baixo. Frente às
passagens pitorescas que salpicam a trajetória da
banda, Aquiles clama: “distraídos venceremos!”,
e assim, estranhamente, a Ordem Cósmica obedece.
A história por trás de seu didgeridoo, ou
“amplificador orgânico”, revela o por
quê de toda essa fé no desfecho de situações
bizarras: o instrumento foi encontrado por um amigo numa
loja de artigos para decoração, cujos vendedores
não faziam idéia de que se tratava de um artefato
musical.
O
resto das divertidas desventuras de Pedra Branca fica confinado
no escuso claustro do cotidiano dos músicos, essas
criaturas excêntricas. Sallun e João contam
que durante dois meses Aquiles andava relapso em seus compromissos
com a banda: esquecia instrumentos, chegava atrasado aos
ensaios, andava preguiçoso e desatento. No entanto,
na noite do eclipse total da lua que ocorreu em 15 de maio
último, Aquiles adentrou energicamente a casa de
Sallun avisando estar cheio de idéias e disposição
para criar – o que, de fato, aconteceu. Desde então
sua atuação junto aos parceiros se estabilizou
dentro dos níveis aceitáveis a um canceriano
lunar.
Mas
Aquiles é apenas o mais obviamente distraído.
Afinal, as teorias filosóficas que Sallun estuda,
entre aulas e indigestos tratados, exigem grande capacidade
de abstração dos aspectos idiossincráticos
do mundo. Da mesma forma, a atenção que João
dispensa na elaboração de receitas fúngicas
para alimentar o devir ancestral não pode estar em
outra parte. Com a distração própria
do talento natural que deriva dessa matriz de três
pontas, Pedra Branca vence na terra do sol.

Pedra Branca