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Esta
matéria foi feita num formato que chamo de Hipertexto
Social Mundial – um território cibernético
no qual cada link leva a um “auditório”
onde discursam pensamentos do anarquista Noam Chomsky, do
filósofo Félix Guatarri, do coletivo de artistas
Critical Art Ensemble, Gandhi, lama Padma Samten, Hakim Bey
e outros. Esses links discutem o texto principal e possibilitam
a experiência da leitura líquida,
não linear. Para acionar os links, clique sobre as
palavras sublinhadas - lembrando que, na maior parte das vezes,
seu cursor não se transformará numa
mãozinha.
Era o fim do segundo dia da quinta edição do
Fórum Social Mundial e eu já me conformava com
o fato de que estava tudo irremediavelmente mudado. Exato
como uma folha de outono sub-tropical, caía parte do
que eu era até então.
Quando
voltei para o Rio de Janeiro, cinco dias depois, mandei às
favas minha ida a Áustria para um curso de extensão
em Business; reivindiquei a gerência de Relações
Humanas para o presidente da empresa; sentei em zazen. A isto
eu chamo de resultados práticos – coisa que os
meios
de comunicação acusam o
evento de não oferecer.

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Bem,
esta é apenas uma das imbecilidades que jornalistas
cometem sobre o Fórum. Também sugerem
se tratar de uma espécie de comuna secular
millenium version ou de uma festividade hippie.
Eu
já participei de festividades
hippies de grande envergadura
e evidentemente vi um pedaço disto em Porto
Alegre – uma pequena parte do que se passou
às margens do rio Guaíba.
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Um
punhado de sujeitos balançando dreadlocks e moças
rodopiando saiões indianos, a velha caricatura, chamam
mais atenção do que a legião de pessoas
distribuídas em mais de duzentos auditórios.
Eu estava no segundo time. Do primeiro ao último dia,
minha rotina se resumiu a acordar às seis da madrugada
para pegar a primeira palestra da manhã, emendar uma
na outra até as cinco da tarde, voltar pra casa de
meu anfitrião e bater na cama às nove da noite.
Eu fui ao Fórum, não tive tempo para a social
mundial. É dele que eu posso falar. Até porque,
para ser original, o Jornal
Nacional e a Folha de São Paulo
não me deram outra alternativa.
E
lá estava eu, jornalista independente, na palestra
que escolhi pro primeiro horário do primeiro dia: cinco
colegas franceses, um indiano e um brasileiro falando sobre
aquilo que Noam Chomsky chama de “fabricação
de consenso”. O foco da conversa
era a alarmante crise de percepção causada pelos
meios de comunicação de massa a respeito de
variados assuntos e a conseqüente anulação
de sua principal responsabilidade, que seria a integração
das diferenças. Ora, havia algo de familiar naquilo!
Há cinco anos a diversidade de vetores trabalhada pelo
Fórum vem sendo esmagada pelo rolo compressor midiático
através de rótulos taxativos. Muros, muros altos,
muros por toda parte: nós, participantes, éramos
o “outro”, um corpo
sem órgãos que não
deveria ser levado a sério.
Mas
valeu mais que a pena pagar pra ver. De cara, surpreende o
fato de que a espinha dorsal do encontro não aspira
a bostejar sobre o fim
da verticalidade capitalista, mas a apresentar
alternativas práticas para torná-lo mais humano
– inclusive dentro das empresas, essas máquinas
de guerra dos donos do mundo. Trocando em miúdos, o
alvo era reafirmar a soberania dos povos e o senso ecológico
da economia. Porque a barra, meus caros, tá pra ficar
muito mais pesada. Em muito pouco tempo.
IT´S
THE END OF THE WORLD AS WE KNOW IT

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Sinto
informar que nossas atuais seis bilhões de cabeças,
que se multiplicam em progressão geométrica,
dobrarão em apenas vinte anos. Seremos
12 bi daqui a vinte – eu e você ainda estaremos
bastante lúcidos para ver a coisa toda acontecer.
Aqui no terceiro mundo, onde habitam as conseqüências
mais radicais das cagadas que a história acumula,
vai ser mesmo a terra de Marlboro. Potencialize a pobreza,
a violência e os desastres ambientais e você
terá uma paisagem realista sobre o futuro próximo. |
Que
tal?
Não
era de admirar que no espaço temático F do Território
Social Mundial havia salas permanentemente voltadas para a
iminente crise da água potável. Até na
sede correremos o risco de rodar.
Não
se você tiver muito dinheiro, é lógico.
Então não terá problema em pagar uma
pequena fortuna pela garrafa d´água – procedente
do mar, processada sob custos altos e comercializada por alguma
megacorporação. O
resto morre desidratado ou de doenças
derivadas de fontes contaminadas. Mas mesmo se conseguíssemos
democratizar, para todos os miseráveis do globo, o
poder de compra médio dos países ricos,
precisaríamos de nada menos que cinco Terras para dar
conta da produção de bens de consumo. Cinco
Terras! A sondagem do sistema solar começa a fazer
sentido!
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Soberania
alimentar também estava na pauta das urgências:
90% dos grãos produzidos no mundo são
controlados por cinco conglomerados – olha
só que medo.
Como
se não bastasse, todos eles não param
de responder por acusações sobre trabalho
semi-escravo (Cargill, ADM); uso de mão-de-obra
infantil (Bayer, Unilever, Monsanto); achatamento das
cotas pagas para camponeses (Cargill, Unilever); boicote
aos pequenos agricultores e criadores de gado (Parmalat
e Nestlé do Brasil); envenenamento dos camponeses
com pesticidas fatais; e pesadelos do gênero.
De
64 mil transnacionais, menos de duas mil produzem relatórios
anuais sobre seus impactos social e ambiental. Num
passe de mágica, ecochatos
passam a contar com todo o meu respeito.
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CONSERVADORES
SEM GRAVATA
Impulsivamente, e não sem razão, despejamos
a culpa toda nas nações. Os Estados Unidos,
por exemplo, que é o principal responsável pelo
aquecimento atmosférico, deu o olé no Protocolo
de Kioto e arrotou na cara do fatídico encontro de
Joanesburgo, em 2002 (junta tudo com a histórica tirania
neoliberal, adiciona a guerra do Golfo e do Iraque, mistura
com a questão palestina e adivinha quem pagou o maior
mico do evento). Só que, seguindo sua própria
natureza, o Fórum também advoga outra linha:
a das iniciativas horizontais, não-governamentais.
A
ação civil e individual
sempre pode amortecer a porrada – pelo menos em teoria.
Afinal
será que, por exemplo, você estaria disposição?
O
emporcalhamento e esgotamento dos recursos naturais são
causados pela, e gerada para responder à demanda de,
uma pequena parcela da população mundial –
aquela que atende às propagandas de carro esporte,
celular,
um bom dia com Kellog´s. A Terra é um organismo
finito e a gente só está aqui, consumindo
em massa, porque um número indecente
de pessoas não está consumindo nada. Certo.
Mas por mais óbvia que pareça a urgência
de mudança, ninguém
pára efetivamente de consumir:
está todo mundo pirando no tesão da compra,
este neoópio do povo. Você pode ser punk, militante
radical, vegetariano, mas até que rompa com a versão
shopping center da realidade e passe a
questionar se realmente precisa do que possui, é mais
um conservador. Junto com a educação,
o consumo é o principal meio pelo qual o
status permanece quo.
Neste
quesito o marketeiro espanhol Carlos Ballesteros meteu o pau
como le gusta.

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Num
esforço menos arrojado que os sensacionais canadenses
do Adbusters,
mas igualmente agressivo, ele encabeça o Consume
Hasta Morir, que usa as mesmas
armas da propaganda
para esfregar na cara dos consumidores
seus comportamentos abusivos. A ação,
que ele chama de contrapublicidade, repousa nos fundamentos
do copyleft e apóia as clássicas Semana
da Tevê Desligada e Buy Nothing Day – qualquer
coisa que ajude o consumidor a voltar à condição
humana. O auditório deixou metade do público
do lado de fora, que continuava a se avolumar progressivamente
a despeito do sol de mais de 35 graus. |
Ser libertário é libertar-se daquilo que aprisiona
os outros.
ENQUANTO
ISSO, NO RESTO DO PAÍS...
... as manchetes publicavam bandeirinhas do delirante PSTU
durante a passeata de abertura, show do Manu Chao e Lula
sendo vaiado no estádio do Gigantinho; a classe média
ri e segue em frente com seu sonho pequeno-burguês de
cobertura duplex, lipoaspiração e cruzeiro cafona
pelas Bahamas.
MOMENTO
“COMPANHEIROS!”
ou
QUANDO BARULHO É FUNDAMENTAL
Voltemos um instante aos Estados Unidos. O mundo inteiro anda
um bocado irritado com eles, você sabe. Não há
muito que fazer a respeito disto: não é de hoje
que presidentes estadunidenses atropelam decisões da
ONU e organismos internacionais do tipo para garantir a farra
de sua elite econômica. Acreditem, não é
exclusividade de Bush filho. A conferência “A
Luta pela Paz, Contra a Guerra e o Imperialismo”, organizada
pelo Conselho Mundial pela Paz, apresentou cerca de dezesseis
representantes de países que penam com a galhofa e
desencavaram pesadelos das antigas.
Uma
coisa é escutar falar disto, outra é olhar na
cara daquela gente que se esgana na riqueza de detalhes.
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Foi bastante instrutivo, porque finalmente você
sente o que eles passam. O embaixador da Palestina no
Brasil deve ter gastado sua cota de minutos, mais um
terço da de cada um dos outros delegados. Os
representantes israelense e ianque aplaudiram-no com
sincera camaradagem e iniciaram seus discursos advertindo
pertencerem ao “outro lado” e se desculpando
pela politicagem baixo-nível de seus países.
A platéia exultava.
Em
nome de uma coalizão que incluiu Dinamarca, Chipre,
México, Índia, Bélgica, Holanda,
Grécia, Turquia e muitas outras bandeirinhas,
a lavação de roupa suja ainda prosseguiu
com dois palestrantes cubanos, um italiano, um vietnamita
(que nos remeteu aos idos da Guerra Fria), uma chinesa,
uma catalã, um colombiano, um venezuelano –
e no final os States eram uma lula gorda esmagando o
planeta com seus tentáculos.
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Como
parece não haver qualquer chance de soberania real
para a maior parte dos países, outra palestra, desta
vez liderada pelos ativistas alemães do núcleo
ATTAC, trouxe ao microfone pessoas que participaram de ações
bem-sucedidas de desobediência civil ao redor do mundo.
De
qualquer modo, mesmo que os 155 mil participantes estivessem
sofrendo de uma histeria humanista coletiva, o FMI e o Banco
Mundial foram bastante concretos em enviar, pela primeira
vez na história do Fórum Social Mundial, representantes
para escutar as queixas e iniciar diálogos. Sem contar
que, enquanto isso, em Davos, as questões pertinentes
às trapalhadas sociais e ambientais roubavam a cena
no Fórum Econômico. De qualquer modo, evitar
o fetiche de materializar
a culpa continua sendo mais eficiente.
BOTA
FÉ
O jornalista indiano do primeiro dia discursava sobre comunicação
de massa, mas sem querer me fez entender por que diabos o
Fórum abrigava um espaço temático entitulado
“Cosmovisões e Espiritualidade”. Dizia
ele que a realização consistente é como
um arco e flecha: quanto mais para dentro você puxa
a flecha, mais longe ela é lançada. É
uma lógica tipicamente oriental que reafirma a velha
máxima de que, para mudar as coisas, é preciso
começar mudando o que existe dentro de você.
Very Gandhi.

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Para
a maior parte das pessoas isso é balela mas,
curiosamente, tem sido tratado com nuances verdadeiramente
políticas por diversas câmaras de vereadores
brasileiras (incluindo a de São Paulo). Tais
câmaras estão incorporando um comitê
de cultura de paz para implementar ações
formais de não-violência em suas cidades,
começando pela educação em escolas
públicas. Alguns projetos já estão
em atividade.
É,
o pico das Cosmovisões jogava com peças
avançadas. Ou pelo menos foi o que achei do
debate sobre o uso da ayahuasca com fins terapêuticos.
A ayahuasca é a célebre bebida usada
pela União do Vegetal em seus cultos religiosos
para provoca visões.
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Para
seus fiéis, é o momento de união com
o divino; para o brasileiro médio, é um ritual
macabro. Um painel em plena luz da manhã portoalegrense,
onde um homem contou que freqüentava a terapia da ‘huasca
com o filho – ousado. Ousado também por parte
dos cabeças da União do Vegetal, que liberaram
o uso do chá para terapias experimentais. O melhor
depoimento foi de uma psiquiatra doutora em teologia –
arregaçante.
CONHEÇA MEU MUSO INSPIRADOR:

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Eu
saía do reduto ayahuasqueiro quando, numa dessas espetaculares
sincronias, dei de cara com um sujeito explicando a outro
onde é que ficava o Puxirum, a área de saberes
indígenas que eu procurava havia dois dias. A divulgação
tinha sido mínima e ela ficava por último no
Território Social Mundial, ali perto.
Atrás
das árvores, ao redor de uma fonte, centenas de índios
sul-americanos se ocupavam, suaves, com suas atividades especiais.
Foi a visão do idílio.
Alguns
deles vendiam seus artesanatos típicos; outros faziam
danças e cantos rituais; e um terceiro grupo, vestido
à caráter, detalhava a galopante violação
de seus direitos. Dentre estes, quase todos falavam português
e espanhol, além do tupi ou quéchua.
Na
platéia, caras-pálidas de todas as partes do
mundo solidarizavam-se com o drama ameríndio que, no
Brasil, normalmente gira em torno de latifundiários
que invadem áreas demarcadas pela Funai e arranjam
o despejo de tribos inteiras comprando um juiz local. Esta
era a história do curumim que você vê aí
em cima, contada por sua irmã depois da minha imperdível
sessão de esconde-esconde com ele. Seu povo vaga em
estado de semi-pobreza por Porto Alegre enquanto luta para
readquirir meios legais de retornar para suas terras, sem
as quais eles não sobreviverão por muito tempo.
Muitas tribos cogitam a criação de um parlamento
indígena em Brasília: apenas protegendo os territórios
já assegurados é possível preservar sua
identidade cultural. Identidade esta que, por sinal, é
a mais autêntica expressão do próprio
Brasil – a expressão do leitor e a minha.
No
dia seguinte voltei para ver meu curumim pela última
vez. Passei a tarde jogada no Puxirum, ora batendo papo com
os índios (troquei até e-mail com um cacicão
boliviano multicolorido), ora observando a correria dos pequenos...
e eis que ele aparece. Um pedaço tão mínimo
de homem natural e eu parei no tempo. Nos divertimos com brincadeiras
da criança urbana que fui um dia, eu rindo da impossibilidade
de colocá-lo no colo (menino livre!). Horas mais tarde,
no debate que a ex-primeira dama francesa Danielle Mitterrand
organizou com índios brasileiros, anunciaram que, na
semana do Dia do Índio, vai ter Fórum Social
Indígena em Boracéia, litoral norte de São
Paulo.
Pode
ser minha chance de finalmente encontrar o caminho para a
aldeia.
ZONA
AUTÔNOMA TEMPORÁRIA
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Eu
não vi o Saramago, eu não vi o Hugo Chávez:
eu vi o que me interessava, e o que me interessava eram
problemas. Sobre o Fórum Social Mundial você
sempre escutará um participante dizer uma coisa
diferente. É uma experiência essencialmente
pessoal.
Mas
eu ouvi falar que a tenda Caracol Intergalaktica foi
a sensação do Acampamento da Juventude;
que a comunidade que se instalou no Território
da Paz estava praticando esse ansiado outro mundo possível;
que as atrações
culturais espalhadas pela cidade
eram incríveis. Na programação
do evento, dividido em dois calhamaços de papel-jornal,
tinha-se uma idéia da intensidade da articulação
dos núcleos gays, femininos, de direitos humanos
e contra a AIDS. Dava vontade de se dividir em muitos
e participar de tudo, mas o melhor a fazer eram escolhas
acertadas – o que pode ser bastante difícil
if you believe the hype.
Preferi
andar sozinha e me encontrei em todo lugar.
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Foi
um gol marcado aos quarenta e cinco do segundo tempo: em 2006,
tal qual a zona
autônoma temporária que é,
o Fórum será desmembrado e acontecerá
simultaneamente em diversas partes do mundo. Em 2007, tornará
a se materializar, unificado, na África.
Enquanto
continuarmos mandando o respeito à vida pro ralo, o
brainstorm
esquerdista tem mais é que continuar
abalando o mundo em chamas. É o mínimo que se
faz.
Mas
neste hipertexto instável, desequilibrado, as idéias
se aglomeram umas sobre as outras, e escapam, e dão
lugar a outras, enquanto aquelas que desaparecem ainda deixam
suas sombras sobre aquelas que tiveram êxito.
- Critical Art Ensemble |