RAINBOW FAMILY OF LIVING LIGHT
3º ENCONTRO MUNDIAL – CHAPADA DIAMANTINA, BRASIL

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Texto por Joana Coccarelli
Fotos por Lisa & Andre Ismael

FOGO – CHAMAS, TERREIRO, ESPÍRITO
Era um povo esquisitão, mas adorável, esses israelenses. Numa sexta-feira, dia de destaque para a tradição judaica, eles ocuparam a cozinha e prepararam comidas típicas para servir para todos os rainbows na hora do jantar. Os que não trabalhavam com facas e panelas estavam ao redor da fogueira do Main Circle, cantando músicas em hebraico que, de tão encantadoras, levaram a platéia multinacional a cantar junto, mesmo sem saber o significado dos versos.

A exemplo do Vision Circle e dos casamentos, perto do fogo os acontecimentos eram tônicos. O caso clássico foi o das cerimônias T-Mascal, as saunas sagradas quase sempre ministradas pelos índios ianques; mas o frio da noite favorecia casualidades, como o acúmulo de corpos ao redor das fogueiras comuns. Ali era gerado um uníssono de calor que integrava as pessoas, enquanto a ação hipnótica das chamas facilitava profunda introspecção. As conseqüências variavam de intermináveis jams entre músicos e seus fascinantes instrumentos étnicos até explosivos fenômenos transpessoais, individuais ou coletivos. E aqui, senhoras e senhores, é que conheci o significado ortodoxo da palavra “transe”, este termo tão vulgarizado e incompreendido.

Eis que em minha última noite na Rainbow Family, quando existia a certeza de que tudo o que me havia de acontecer já havia acontecido, eu vi um círculo de gente abraçada que pulava e gritava descontrolada próxima à fogueira, e instintivamente a ele me juntei. Eu mal sabia quem eram as pessoas que estavam ali, algumas eram amigas, verdadeiramente amigas, e outras eram desconhecidas, mas nada disso importava, posto que era lua nova e não havia lua nenhuma, e os rostos eram tão somente expressões em negro claro sobre negro escuro, e apenas as vozes e os movimentos frenéticos dos corpos importavam.

Sempre, sempre abraçados, girávamos a ponto de precisarmos nos apoiar um nos outros, e berrávamos como animais até o ar faltar aos pulmões e os pulmões colapsarem, assim, por muitos minutos. Então harmonizamos nossas gargantas em urros de índios, imagine-se um índio e grite irascível como se lutasse a guerra, havia aqueles que simulavam bumbos e tambores e era a própria guerra, pulávamos muito e respingávamos suor nos rostos dos outros, nos dissolvíamos nos hálitos dos outros, alisávamos as peles das costas e apertávamos as carnes dos ombros dos outros.

De repente um saltou para o meio da roda e pôs-se a dançar possuído com nossos gritos, chacoalhando os braços estendidos para o céu, e com eles a cabeça, o tronco e as pernas, até atirar-se de joelhos sobre a terra, e depois se levantar com a língua para fora e começar tudo de novo. E para dentro do círculo todos nós fomos, um de cada vez, evocando mais selvageria dos demais, tornando nossos corpos uma oferenda primitiva no olho daquela fogueira de gente vulcanizada, em erupção, já não era suor mas lava que escorria, e já não era ar mas gases metamórficos, e aquilo durou mais de meia hora de exaustão, e aquelas pessoas nunca mais foram as mesmas para mim, posto que aquilo era íntimo como sexo, foi bom pra você?, foi transformador e regenerador como o mais espasmódico dos orgasmos. E pelo resto da madrugada, enquanto entoávamos canções amenas ao redor da fogueira com outras pessoas, eu lamentava secretamente pelas criaturas módicas e sensatas do mundo.

Teve mais. Teve a vez da brasileira que interrompeu os músicos quando, do nada, se levantou e começou a correr em volta da fogueira do Aloha Camp, bradando um raciocínio sobre a harmonia entre homem e Natureza. “Ela está catalisando o sentimento de todos nós e está fazendo a catarse... é coisa da ayahuasca, ontem ela fez o primeiro ritual de sua vida, ainda está sob efeito”, cochichou-me um sul-africano. Subitamente, durante o ímpeto verbal, a moça arrancou a canga que vestia e jogou-a no fogo, e continuou discursando nua, e correndo, o pano queimou até virar cinzas e as pessoas ali a olhavam com todo o respeito.

“As energias são como os raios de Deus, as forças da Natureza como os raios do mundo, as artes e as ciências como os raios do homem”
(“Corpus Hermeticum”, Hermes Trismegistos)

Rituais de ayahuasca aconteciam duas vezes por semana na Rainbow Family brasileira. Um mestre fardado elaborava uma lista de interessados e cobrava R$20 por pessoa selecionada – estrangeiros tinham a preferência, já que fora do Brasil cerimônias envolvendo o vinho do cipó são mais escassas. Após uma palestra sobre o ritual e um dia de jejum, os participantes se encontravam na beira do rio e seguiam para a floresta, onde passavam a noite sob a tutela do mestre. No entanto alguns adeptos de longa data dos rituais, como o chileno Eduardo, sentiram que a tradição da ayahuasca estava sendo desrespeitada: “A terra deu a ayahuasca sagrada ao homem. Ninguém tem o direito de cobrar por ela”. Já outros rainbows ressentiam pela movimentação de dinheiro dentro do encontro. O escocês Steve chegou a fazer exaltado piquete contra os rituais nas barbas do líder fardado, quando um grupo se preparava para partir para o mato.

ÁGUA – BANHOS, LUNAÇÕES, FEMININO
Um livro abandonado há dias do lado de fora da barraca vizinha, esse “Mulheres que Correm com Lobos”. Molhado de chuva, sujo de terra, desfolhado pelo vento. Nalini foi se desligando de sua leitura a medida em que participava de mais rituais de ayahuasca. A despeito da polêmica, foi a quase todos. Não deixava que nada interferisse em sua busca por uma intimidade cada vez maior com o princípio feminino da Natureza.

A despeito da polêmica, compreendi completamente sua posição. Afinal de contas, assim que cheguei ao gathering, foi ela quem me adiantou: “Aqui, o seu ciclo menstrual vai se atrasar ou se adiantar, para entrar em sincronia com o das outras mulheres. Espere para ver: vamos sangrar todas juntas na lua cheia”. Na mosca. Quando o satélite se fez redondo no céu, o sangue nos acometeu uma após a outra; nossos chakras básicos, escancarados como antenas parabólicas, nos causavam uma mórbida languidez. Dentro da seda, chá de boldo no lugar do cânhamo, pois o barato daqueles hormônios alucinados bastava. Ao fechar os olhos, muito tonta, eu visualizava arabescos em rotações contínuas.

E quando os abria havia a lua circular, pleno holofote sobre Poço do Melado. Era tão, mas tão luminosa que eu simplesmente dispensei a lanterna para me deslocar pelo gathering quando estava escuro. Árvores, pessoas, montanhas... tudo tinha sombra naquelas noites. Numa dessas vezes, descansando com Nir após o jantar, ele me deu a descrição mais precisa: “Esta lua brilha tanto que existe um arco-íris dourado em volta dela”. Mais voluptuosa, impossível.

À meia-noite o sol brilhante”
(“Sol Brilhante”, Pedra Branca)

Diziam que a grávida israelense, de barriga tão baixa que forçava os ossos da bacia, teria o bebê antes da lua minguante. Como as mulheres tribais, ela acreditava que o desfecho de sua gestação podia ser previsto pelo calendário lunar e ansiava por parir ali mesmo, de cócoras sobre a Chapada. Para a frustração geral, até o fim do encontro, em 2 de abril, o bebê ainda curtia seus limites placentários.

Num futuro encontro mundial, em algum lugar do planeta, hei de encontrá-lo brincando com um grupo de crianças semelhante à desta Família. São pequenos deveras mais saudáveis que qualquer guri urbano. São livres em seus horários e suas vontades, e ainda assim se relacionam com harmonia entre si e sabem obedecer qualquer adulto que se faça autoridade num dado momento. Algumas são prodígios: a menina Eartha, de dez anos, está tão acostumada a conviver com crianças de outras partes do mundo que domina fluentemente inglês, francês, espanhol e português. Apesar de ter conversado com ela algumas vezes, eu nunca soube ao certo sua nacionalidade.

Eartha e os outros gostavam de brincar na praia, uma parte da margem do riacho que dispunha de mais areia que as demais. Ali também era o rendez-vous da prática matinal de Yôga ou tai-chi chuan, e das pessoas que sofrem do mesmo Complexo de Amélia que eu e achavam a maior graça em ter que lavar as roupas. Sem sabão, é claro, apenas com a força da correnteza e com a aspereza das pedras do fundo. O sol era tão poderoso que no fim da tarde uma calça jeans lavada pela manhã já estava seca, pronta para vestir.

E nesta Rainbow Family apresentou-se oficialmente o projeto Ahimsa, ou Arca do Novo Tempo, que ambiciona zarpar do Rio de Janeiro em dezembro deste ano e navegar até o IV Fórum Social Mundial, na Índia. Para informar como essas águas estão rolando, eu recomendaria uma conversa com o austríaco Arthur, o maior entusiasta do movimento, mas como ele nunca está onde foi visto pela última vez, deixo com o www.arca-ahimsa.org.br.

POSFÁCIO
Meu plano inicial era ficar não mais que dez dias na Rainbow Family. No quarto dia no gathering acordei cedo, caminhei até o primeiro telefone público de Arapiranga e avisei aos interessados que estava adiando indeterminadamente meu regresso ao lar. Fiquei três semanas.

Alguns dias antes do fim da Família, Gisa, Carol e Flavia foram embora. Ainda assim, com brothers e sisters na casa dos duzentos, a solidão era tão somente uma questão de escolha. Alguns compraram cavalos em Arapiranga para, dali, engatar numa caravana até Machu Picchu; outros ficariam mais uma semana na cidadezinha para plantar um pomar na escolinha local, a partir das sementes de frutas consumidas no gathering. A receptividade do povo de Arapiranga à Rainbow Family foi tão grande que eles mesmos passaram a chamar Poço do Melado de Poço dos Milagres.

No último dia do encontro fui ajudar a cozinhar o almoço – camuflagem contra o medo da volta à civilização. Era medo de verdade, meus caros, medo igual àquele pânico que criança tem de bicho-papão. Eu me lembrava de Glauber, o baiano de cabelos até a cintura, que dizia, “Ir embora? A gente está na bolha, menina, só maluco sai daqui antes do fim!”

Eu almoçava no Main Circle com Brian quando o canadense Nara me ofereceu uma carona até Arapiranga num jipe, o único veículo que chegava até o gathering. Em quinze minutos a barraca estava desarmada e a mochila estava feita; em outros quinze minutos eu estava na tosca pousada da cidadela, agradecendo ao motorista por ter me poupado de mais de uma hora de caminhada com toda aquela tralha. Uma privilegiada.

Naquela noite Arapiranga estava cheia, tinha rainbow dormindo no canteiro da praça. Passei a madrugada sentada na calçada dando um dois com um americano e três israelenses. Às cinco da manhã partimos no único ônibus diário que saía da cidade. De Vitória da Conquista peguei 21 horas de estrada até o Rio de Janeiro – eu, meu chapéu de folha de palmeira e um malabarista japonês doido que não falava inglês nem português.

Durante quatro dias não consegui sair de dentro do meu apartamento. A cidade que eu amo me causava aversão, me sentia uma lesma sem concha, foi um choque ter que reenquadrar o organismo e a mente. As pessoas na rua eram pálidas e sem identidade, a paisagem era cinzenta, urbanóides são criaturas mutiladas. Quando voltei ao trabalho, me sentia encaixotada num cubo de vidro e plástico. Coloquei uma planta do lado do computador, para conseguir suportar.

Em três dias os rainbows estrangeiros de passagem pelo Rio começaram a se hospedar na minha casa e na bagagem trouxeram alívio para minha tristeza. Vieram um atrás do outro; houve semanas em que dormiam sete pessoas no chão da sala, além de algum felizardo no quarto de hóspedes – um verdadeiro kibbutzin. Para honrar a hospitalidade, cozinhavam. Na hora de comer, fazíamos uma ciranda igual ao Main Circle, com as mesmas musiquinhas e tudo mais.

Foram dois meses e meio direto sem saber o que era privacidade (descobri que o telefone da minha casa estampava o mural do escritório carioca da Arca), mas a alegria e a troca derivadas da convivência eram maiores que tudo. Quando finalmente o derradeiro rainbow seguiu para o Pantanal, o mundo cruel já não me assustava. Havia assimilado totalmente a experiência e criado uma maneira completamente diferente para viver dentro do esquema-sistema. Arte, aquilo que melhor manifesta a quebra dos valores vigentes, é o meu destino definitivo.

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