RAINBOW FAMILY OF LIVING LIGHT
3º ENCONTRO MUNDIAL – CHAPADA DIAMANTINA, BRASIL

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Texto por Joana Coccarelli
Fotos por Lisa & Andre Ismael

Foram quatro semanas contínuas da mais psicodélica das trips – um estado de suspensão utópico semelhante aos idílios de Aldous Huxley. Em março deste ano o vale de Poço do Melado, nas entranhas da Chapada Diamantina, Bahia, foi a Grande Mãe do Terceiro Encontro Mundial da Rainbow Family of Living Light, uma anarquia nômade fundada em 1972 no Colorado, Estados Unidos, a partir de um ímpeto hippie nascido durante o mítico festival de Woodstock. Desde então os gatherings acontecem anualmente durante um mês em algum lugar do território americano, e já possuem versões locais em diversos países do mundo.

O que se viu na Chapada foi muito mais expressivo do que isto, porque uma edição mundial da Rainbow Family não tem fronteiras regionais. Pode acontecer em qualquer lugar do planeta, para gente de qualquer nação, idade, raça, credo, orientação sexual ou status econômico. A semana da lua cheia, costumeiramente a mais crepitante, chegou a reunir cerca de mil pessoas de mais de 40 países e apesar de estarem em território nacional, os brasileiros não passavam de um terço dos participantes.

E era vera anarquia. Sem células formais de gerência da comunidade, sem traços de tecnologia. Eletricidade, gás, telefone, água encanada... nada. Era tudo orgânico – o desconcertante lirismo do cru. A individualidade é uma ordem, o consenso coletivo também; nunca os paradoxos estiveram tão evidentes e tão integrados. O choque da chegada à Rainbow Family é o prelúdio da destruição dos condicionamentos doentes a que nos sujeitamos durante uma vida inteira. Ao aniquilar nossas personas-Nabucodonosor que se enfeitam com flores de plástico, Shiva Nataraja é o arauto de um jardim de verdade sobre os escombros da Babilônia.

TERRA – TERRITÓRIO, NATUREZA, TRADIÇÃO
Parti do Rio de Janeiro sozinha num avião até Salvador, ainda assim prevendo um dia e meio para chegar. Pelas rodoviárias baianas e ônibus até Arapiranga, a última cidade antes do gathering, mochileiros de nacionalidades diversas se avolumavam numa família prévia. Para nos poupar de cinco dos oito fatídicos quilômetros de subida até o local exato da Rainbow Family, alugamos a caçamba de um caminhão. Na altura de um mangueiral, a estrada se tornava im
praticável, e era preciso seguir a pé, mais bagagens. Ao longo deste trecho encontrávamos rainbows que catavam pedaços de terra vermelha ou dourada para pintar a pele.

O suplício terminava no alto da subida onde, numa tenda feita de lona amarrada a árvores, voluntários nos apresentavam um mapa da área do encontro e desfiavam um rosário de recomendações ideológicas e cuidados com o meio ambiente. Mesmo assim, o sentimento de desorientação era assolador: difícil saber qual é o seu lugar quando a terra é de ninguém. Para esfriar os miolos escaldados pelo sol do meio-dia e conseguir raciocinar, parti para a beira do rio com alguns de meus companheiros de chegada, ficamos nus e nadamos alegres e inocentes como infantes no maternal.

A ficha caiu: estou num Jardim do Éden onde ninguém sofre de pecado original.

Por obra da sincronicidade, esta enigmática força que zela pelo encaixe perfeito das situações, Gisa, Flavia e Carol, três amigas queridas que há dias me aguardavam na Família, me avistaram antes mesmo que eu tivesse encontrado um lugar para acampar, de modo que armei minha barraca junto às delas e rapidamente me informei sobre os dias e as noites no gathering. Melhor assim: com a vastidão do lugar e a quantidade de gente presente, poderíamos ter levado dias para nos achar.

Do lado de fora da minha tenda, que ficava embaixo de uma árvore numa colina, eu via a apoteose das montanhas monolíticas, as folhosas copas do cerrado e a grama alta, macia e dourada que cobria tudo mais. As flores eram quase eróticas, de tão curvilíneas e eretas. Pelo Paraíso havia ocasionais serpentes e escorpiões, cuspidos pelo subsolo cravejado de quartzo branco. Apesar do pavor geral, eram respeitados, mas os cristais não tinham a mesma sorte: alguns rainbows defloraram o chão para arrancá-los de amplas câmaras subterrâneas. Corria à boca pequena que a geologia energética era uma das principais razões pela qual Poço do Melado havia sido eleito a sede do Terceiro Encontro Mundial.

Aliás, uma das maiores tradições da Rainbow Family era justamente o Vision Circle – o ritual de escolha da data e país da edição seguinte. Dele participava quem quisesse, mas, devido ao peso de sua mística formalidade, apenas rainbows mais engajados se prestavam a dispensar horas diárias para debater o umbigo da conjuntura da Família com outros parlamentares igualmente esclarecidos. Um bastão enfeitado com penas indicava quem estava com a palavra; as vozes, graves e baixas, dramatizavam ainda mais os conceitos e filosofias pertinentes. Fogueira ao centro, defumadores, cristais e talismãs ao redor, os debates duram até todos os palestrantes sentirem que uma conclusão foi tirada e que nada mais precisa ser dito. Na noite após a última reunião, um dos participantes anunciou na hora do jantar: “Este Vision Circle durou doze dias e determinou que o próximo encontro mundial acontecerá na Costa Rica, entre a luas novas de março e abril de 2004”. O pico exato do país, no entanto, é revelado apenas semanas antes através do site da Família, depois que os primeiros rainbows visitarem regiões potenciais e se decidirem por uma.

Pacha Mama estava para nós como a Vênus de Willendorf estava para o homem ancestral: antes das refeições coletivas, realizadas duas vezes por dia num descampado denominado Main Circle, vozes aleatórias evocavam suas graças em diversos idiomas, em gratidão à terra que nos abrigava e alimentava; em seguida, cantávamos musiquinhas tradicionais da Rainbow Family, entoávamos “ohm” e nos curvávamos sobre o solo. Na cozinha, montada com lona, tábuas de madeira, pedras e lenha, nada de bicho morto: só comida brotada do chão, vegetariana, muito abundante. Quando ali me fiz voluntária, aprendi com uma senhora de longas tranças grisalhas a arte de fazê-la saborosa. Eram chapatis, saladas de frutas, sopas de legumes, massas com molho, polenta, chilli de soja, mingaus de aveia, arroz, feijão, às vezes doces de frutas, muito mais legumes. O terceiro toque de uma enorme concha marinha avisava ao gathering sobre a iminência das refeições.

Respeitava-se a proibição de compra e venda de bens durante o encontro. Dinheiro, só em doação para o Magic Hat – chapéu passado após cada almoço ou jantar, cuja arrecadação cumpria o desafio de abastecer a despensa da cozinha. Foi à base de escambo que, certa tarde, Nalini, uma inglesa que acampava conosco, surgiu com um violão, adquirido em troca de alguns de seus pertences.

 


AR – GENTE, TEMPO, CÉU
Às vezes chapávamos mais que o normal e, quando nos dávamos conta, o céu já havia entrado em sua contagem regressiva para a escuridão. A atmosfera muito límpida garantia visão de cristal líquido para os alaranjados e rosa-choques das nuvens compactas. De tão baixas, pareciam que iam atravessar nossas cabeças; ao longo de um dia, era possível observá-las nômades, se deslocando para qualquer direção, tão imprevisíveis eram as correntes de ar. Às quatro da tarde, o horário mais notável, o céu era um caramelo que se refletia sobre as superfícies expostas.

Muitas vezes eu corri pro meio da grama, respirando fundo e acreditando que estava dentro de uma pintura de Van Gogh. Minha vida assinava um épico a cada um desses deslumbrantes crepúsculos.

“Ontem ao pôr-do-sol eu estava numa charneca pedregosa onde crescem carvalhos bem pequenos e retorcidos; ao fundo uma ruína sobre a colina e trigais no pequeno vale. Era romântico a não mais poder, à Monticelli o sol derramava raios muito amarelos sobre as moitas e o solo, exatamente como se fosse uma chuva de ouro. E todas as linhas eram belas, o conjunto de uma nobreza encantadora. O solos pareciam violetas, os longes azuis”
(“Cartas a Theo”, Vincent Van Gogh, Arles, 1888)

Com a total ausência de relógios, arriscávamos as horas de acordo com a posição do sol em relação aos rochedos. Quando era preciso estabelecer um momento exato para o início de um dos vários workshops, reuniões e cursos livres do encontro, combinava-se “logo depois do almoço”, ou “quando o sol estiver a um palmo do poente”. Poucos dias fora da marcação mecânica revolucionaram minha percepção psicológica do tempo; fisicamente, eu notava que meu organismo ordenava, sozinho, meu ritmo: acordava e sentia sono, fome ou dor de barriga na mesma hora do dia anterior.

Durante a corte de kins que aconteceu dentro de uma caverna local, na tarde Serpente Cristal Vermelha, a Rainbow Family foi laureada com um largo, resplandecente arco-íris, que pousava exatamente em cima da cozinha. Poucos momentos depois, um segundo arco-íris surgiu em curvo paralelo ao primeiro, e assim ambos permaneceram por muitos minutos. De onde quer que estivessem, todos os participantes da comunidade começaram a aplaudir, imitar barulhinhos de animais e soar “Aho!”. Eu mesma, da janela do avião até Salvador, avistei nada menos que seis arco-íris, e os interpretei como os melhores presságios sobre a experiência vindoura.

Sem dúvida nenhuma. Afinal não é todo dia que se conhece um sujeito como o lendário Diamond Dave, um autêntico poeta beatnick da São Francisco dos anos 50, que virou mito por ter dado a Bob Dylan seu primeiro cigarro de maconha (o cantor, anos mais tarde, faria o mesmo pelos Beatles). Ele se apresentou e começou a recitar, em inglês de ritmo fatiado, os versos mais surpreendentes – por vezes ininteligíveis – das galáxias. Quando terminou, abriu um sorriso paternal e disse para a Anarquia Feminina: “Vocês, jovens moças, talvez não saibam, mas foram os beatnicks que prepararam o terreno para que os hippies pudessem surgir!”. Ele ficou sinceramente enternecido quando começamos a falar de Kerouac e Burroughs; sentiu-se como um embaixador da velha guarda de malucos entre uma nova geração que reconhecia sua importância.

Vovô Dave não estava só: Poço do Melado teve a glória de receber não só um dos fundadores originais da primeira Rainbow Family de todas, como dois autênticos índios norte-americanos. Um deles celebrou o primeiro dos dois casamentos que se realizaram no gathering, entre um casal californiano. Isso mesmo. E o noivo vestia uma calça azul-anil, uma camisa estampada com búfalos e botas e chapéu de cowboy. Já a noiva... bem. Para começar, a metade esquerda do rosto de April era totalmente tatuada com uma borboleta azul; tinha uma perna mecânica; e chegou para o casamento com dois incensos acesos espetados no cabelo. Estava linda – possivelmente a noiva mais incrível que todos ali já conheceram. A cerimônia aconteceu num esplêndido fim de tarde, ao redor de uma fogueira em frente à caverna. O convite foi feito a todos os rainbows depois do almoço daquele dia. Não mais que 40 pessoas apareceram, formando uma ciranda ao redor do fogo e testemunhando as preces xamânicas que o velho índio proferia, enquanto defumava os noivos com ervas em brasa abanadas com uma asa de águia. Diamond Dave fechou o ritual com um exclusivo recital beat.

De São Francisco também vinha James in the Rain and the Sunshine, um escalafobético cinqüentão que, após o jantar, se sentava solitário, esperava qualquer sujeito passar e o convidava para fumar haxixe. Ninguém recusava, é claro. Então ele ajeitava um cachimbo improvisado a partir de uma caixinha de papelão, dava uns tragos com a vítima e punha-se a fazer sinistros jogos de palavras metafísicas, até o interlocutor se cansar e ir embora. Consegui dialogar com James, o frito, por mais de uma hora. Com fumaça nas pleuras não era assim tão difícil.

Entretanto a taça “Rainbow Figuraça do Gathering” vai para Budgie, um russo criado em Moçambique que andava pelado para cima e para baixo o dia inteiro, todos os dias da semana. No máximo, um casaquinho à noite. Era o próprio rebento da Era de Aquário: vivia recolhendo assinaturas para petições pela libertação de vítimas de governos opressores do mundo e cantava uma música sobre o apartheid de Joanesburgo. No dia de ir embora da Família, não teve quem não comentasse o estranhamento que Budgie causava usando calças compridas, camisa e tênis.

Os pontos informais de alimentação – aqueles que dependem do fornecimento individual de ingredientes, invariavelmente comprados em Arapiranga – eram focos certeiros da social. A Canadian Tippy, por exemplo, reunia a maioria de canadenses e europeus. No dia em que dispensei o Main Circle para fazer o “circuito gastronômico alternativo” do gathering, Brother Bear, um adorável gorducho de Quebec, me preparou crepes de mel e goiaba, enquanto uma linda francesa de topless e turbante desenhava meu retrato. Ao lado, um garoto suíço tricotava uma manga para sua camiseta puída; um italiano e um turco trocavam impressões sobre a Amazônia (grande parte dos rainbows viajava pelo Brasil antes do encontro); e todos nós tomávamos chai. Mas naquela noite, fugindo aos costumes internacionalistas do pedaço, a Canadian Tippy foi dos integrantes do ENCA brasileiro, que entoavam canções da União do Vegetal enquanto estouravam pipocas na panela. Muita gente do Vale do Capão no local.

Outros lugares de esquema semelhante agrupavam diferentes tribos. A padaria, por exemplo, era o pico da larica da madrugada, onde os americanos Chris, Brian e Ian assavam cookies, pães e bolos. Ficava tão lotado a noite inteira que se assemelhava ao clima de um bar metropolitano. Havia, ainda, pelo menos dois Chaishops: um secreto, escondido no meio do mato, onde os grupos eram pequenos e silenciosos; e um “oficial”, que em pouco tempo acabou virando abrigo para os “micróbios”, aquela parcela mais, digamos, irreverente de hippies.

Aliás, era comum não se ter barraca de camping. Alguns dos numerosos israelenses presentes acabaram improvisando uma tenda coletiva com lonas pretas, batizada por eles mesmos (muito apropriadamente!) de “favela”. O que, no final das contas, contou com a aprovação de todas as mulheres do gathering, já que assim o Dorian Gray da Família, Nir David, cruzamento de Apolo com Eros sem a arrogância de Narciso, não tinha onde se esconder. Como estava próxima ao “bairro israelense”, e conseqüentemente à “favela”, a Anarquia Feminina freqüentemente se acomodava para simplesmente observá-lo à distância.

– Harry – disse Basílio – Dorian Gray é um simples motivo de Arte para mim.
(“O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde)

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