E era vera anarquia. Sem células
formais de gerência da comunidade, sem traços
de tecnologia. Eletricidade, gás, telefone, água
encanada... nada. Era tudo orgânico – o desconcertante
lirismo do cru. A individualidade é uma ordem, o
consenso coletivo também; nunca os paradoxos estiveram
tão evidentes e tão integrados. O choque da
chegada à Rainbow Family é o prelúdio
da destruição dos condicionamentos doentes
a que nos sujeitamos durante uma vida inteira. Ao aniquilar
nossas personas-Nabucodonosor que se enfeitam com flores
de plástico, Shiva Nataraja é o arauto de
um jardim de verdade sobre os escombros da Babilônia.
TERRA – TERRITÓRIO,
NATUREZA, TRADIÇÃO
Parti do Rio de Janeiro sozinha num avião até
Salvador, ainda assim prevendo um dia e meio para chegar.
Pelas rodoviárias baianas e ônibus até
Arapiranga, a última cidade antes do gathering, mochileiros
de nacionalidades diversas se avolumavam numa família
prévia. Para nos poupar de cinco dos oito fatídicos
quilômetros de subida até o local exato da
Rainbow Family, alugamos a caçamba de um caminhão.
Na altura de um mangueiral, a estrada se tornava impraticável,
e era preciso seguir a pé, mais bagagens. Ao longo
deste trecho encontrávamos rainbows que catavam pedaços
de terra vermelha ou dourada para pintar a pele.
O
suplício terminava no alto da subida onde, numa tenda
feita de lona amarrada a árvores, voluntários
nos apresentavam um mapa da área do encontro e desfiavam
um rosário de recomendações ideológicas
e cuidados com o meio ambiente. Mesmo assim, o sentimento
de desorientação era assolador: difícil
saber qual é o seu lugar quando a terra é
de ninguém. Para esfriar os miolos escaldados pelo
sol do meio-dia e conseguir raciocinar, parti para a beira
do rio com alguns de meus companheiros de chegada, ficamos
nus e nadamos alegres e inocentes como infantes no maternal.
A ficha caiu: estou num Jardim do Éden onde ninguém
sofre de pecado original.
Por
obra da sincronicidade, esta enigmática força
que zela pelo encaixe perfeito das situações,
Gisa, Flavia e Carol, três amigas queridas que há
dias me aguardavam na Família, me avistaram antes
mesmo que eu tivesse encontrado um lugar para acampar, de
modo que armei minha barraca junto às delas e rapidamente
me informei sobre os dias e as noites no gathering. Melhor
assim: com a vastidão do lugar e a quantidade de
gente presente, poderíamos ter levado dias para nos
achar.
Do lado de fora da minha tenda, que ficava
embaixo de uma árvore numa colina, eu via a apoteose
das montanhas monolíticas, as folhosas copas do cerrado
e a grama alta, macia e dourada que cobria tudo mais. As
flores eram quase eróticas, de tão curvilíneas
e eretas. Pelo Paraíso havia ocasionais serpentes
e escorpiões, cuspidos pelo subsolo cravejado de
quartzo branco. Apesar do pavor geral, eram respeitados,
mas os cristais não tinham a mesma sorte: alguns
rainbows defloraram o chão para arrancá-los
de amplas câmaras subterrâneas. Corria à
boca pequena que a geologia energética era uma das
principais razões pela qual Poço do Melado
havia sido eleito a sede do Terceiro Encontro Mundial.
Aliás,
uma das maiores tradições da Rainbow Family
era justamente o Vision Circle – o ritual de escolha
da data e país da edição seguinte.
Dele participava quem quisesse, mas, devido ao peso de sua
mística formalidade, apenas rainbows mais engajados
se prestavam a dispensar horas diárias para debater
o umbigo da conjuntura da Família com outros parlamentares
igualmente esclarecidos. Um bastão enfeitado com
penas indicava quem estava com a palavra; as vozes, graves
e baixas, dramatizavam ainda mais os conceitos e filosofias
pertinentes. Fogueira ao centro, defumadores, cristais e
talismãs ao redor, os debates duram até todos
os palestrantes sentirem que uma conclusão foi tirada
e que nada mais precisa ser dito. Na noite após a
última reunião, um dos participantes anunciou
na hora do jantar: “Este Vision Circle durou doze
dias e determinou que o próximo encontro mundial
acontecerá na Costa Rica, entre a luas novas de março
e abril de 2004”. O pico exato do país, no
entanto, é revelado apenas semanas antes através
do site da Família, depois que os primeiros rainbows
visitarem regiões potenciais e se decidirem por uma.
Pacha Mama estava para nós como a
Vênus de Willendorf estava para o homem ancestral:
antes das refeições coletivas, realizadas
duas vezes por dia num descampado denominado Main Circle,
vozes aleatórias evocavam suas graças em diversos
idiomas, em gratidão à terra que nos abrigava
e alimentava; em seguida, cantávamos musiquinhas
tradicionais da Rainbow Family, entoávamos “ohm”
e nos curvávamos sobre o solo. Na cozinha, montada
com lona, tábuas de madeira, pedras e lenha, nada
de bicho morto: só comida brotada do chão,
vegetariana, muito abundante. Quando ali me fiz voluntária,
aprendi com uma senhora de longas tranças grisalhas
a arte de fazê-la saborosa. Eram chapatis, saladas
de frutas, sopas de legumes, massas com molho, polenta,
chilli de soja, mingaus de aveia, arroz, feijão,
às vezes doces de frutas, muito mais legumes. O terceiro
toque de uma enorme concha marinha avisava ao gathering
sobre a iminência das refeições.
Respeitava-se
a proibição de compra e venda de bens durante
o encontro. Dinheiro, só em doação
para o Magic Hat – chapéu passado após
cada almoço ou jantar, cuja arrecadação
cumpria o desafio de abastecer a despensa da cozinha. Foi
à base de escambo que, certa tarde, Nalini, uma inglesa
que acampava conosco, surgiu com um violão, adquirido
em troca de alguns de seus pertences.
AR – GENTE, TEMPO,
CÉU
Às vezes chapávamos mais que o normal e, quando
nos dávamos conta, o céu já havia entrado
em sua contagem regressiva para a escuridão. A atmosfera
muito límpida garantia visão de cristal líquido
para os alaranjados e rosa-choques das nuvens compactas.
De tão baixas, pareciam que iam atravessar nossas
cabeças; ao longo de um dia, era possível
observá-las nômades, se deslocando para qualquer
direção, tão imprevisíveis eram
as correntes de ar. Às quatro da tarde, o horário
mais notável, o céu era um caramelo que se
refletia sobre as superfícies expostas.
Muitas
vezes eu corri pro meio da grama, respirando fundo e acreditando
que estava dentro de uma pintura de Van Gogh. Minha vida
assinava um épico a cada um desses deslumbrantes
crepúsculos.
“Ontem ao pôr-do-sol eu estava
numa charneca pedregosa onde crescem carvalhos bem pequenos
e retorcidos; ao fundo uma ruína sobre a colina e
trigais no pequeno vale. Era romântico a não
mais poder, à Monticelli o sol derramava raios muito
amarelos sobre as moitas e o solo, exatamente como se fosse
uma chuva de ouro. E todas as linhas eram belas, o conjunto
de uma nobreza encantadora. O solos pareciam violetas, os
longes azuis”
(“Cartas a Theo”, Vincent Van Gogh, Arles, 1888)
Com a total ausência de relógios,
arriscávamos as horas de acordo com a posição
do sol em relação aos rochedos. Quando era
preciso estabelecer um momento exato para o início
de um dos vários workshops, reuniões e cursos
livres do encontro, combinava-se “logo depois do almoço”,
ou “quando o sol estiver a um palmo do poente”.
Poucos dias fora da marcação mecânica
revolucionaram minha percepção psicológica
do tempo; fisicamente, eu notava que meu organismo ordenava,
sozinho, meu ritmo: acordava e sentia sono, fome ou dor
de barriga na mesma hora do dia anterior.
Durante a corte de kins que aconteceu dentro
de uma caverna local, na tarde Serpente Cristal Vermelha,
a Rainbow Family foi laureada com um largo, resplandecente
arco-íris, que pousava exatamente em cima da cozinha.
Poucos momentos depois, um segundo arco-íris surgiu
em curvo paralelo ao primeiro, e assim ambos permaneceram
por muitos minutos. De onde quer que estivessem, todos os
participantes da comunidade começaram a aplaudir,
imitar barulhinhos de animais e soar “Aho!”.
Eu mesma, da janela do avião até Salvador,
avistei nada menos que seis arco-íris, e os interpretei
como os melhores presságios sobre a experiência
vindoura.
Sem dúvida nenhuma. Afinal não
é todo dia que se conhece um sujeito como o lendário
Diamond Dave, um autêntico poeta beatnick da São
Francisco dos anos 50, que virou mito por ter dado a Bob
Dylan seu primeiro cigarro de maconha (o cantor, anos mais
tarde, faria o mesmo pelos Beatles). Ele se apresentou e
começou a recitar, em inglês de ritmo fatiado,
os versos mais surpreendentes – por vezes ininteligíveis
– das galáxias. Quando terminou, abriu um sorriso
paternal e disse para a Anarquia Feminina: “Vocês,
jovens moças, talvez não saibam, mas foram
os beatnicks que prepararam o terreno para que os hippies
pudessem surgir!”. Ele ficou sinceramente enternecido
quando começamos a falar de Kerouac e Burroughs;
sentiu-se como um embaixador da velha guarda de malucos
entre uma nova geração que reconhecia sua
importância.
Vovô Dave não estava só:
Poço do Melado teve a glória de receber não
só um dos fundadores originais da primeira Rainbow
Family de todas, como dois autênticos índios
norte-americanos. Um deles celebrou o primeiro dos dois
casamentos que se realizaram no gathering, entre um casal
californiano. Isso mesmo. E o noivo vestia uma calça
azul-anil, uma camisa estampada com búfalos e botas
e chapéu de cowboy. Já a noiva... bem. Para
começar, a metade esquerda do rosto de April era
totalmente tatuada com uma borboleta azul; tinha uma perna
mecânica; e chegou para o casamento com dois incensos
acesos espetados no cabelo. Estava linda – possivelmente
a noiva mais incrível que todos ali já conheceram.
A cerimônia aconteceu num esplêndido fim de
tarde, ao redor de uma fogueira em frente à caverna.
O convite foi feito a todos os rainbows depois do almoço
daquele dia. Não mais que 40 pessoas apareceram,
formando uma ciranda ao redor do fogo e testemunhando as
preces xamânicas que o velho índio proferia,
enquanto defumava os noivos com ervas em brasa abanadas
com uma asa de águia. Diamond Dave fechou o ritual
com um exclusivo recital beat.
De São Francisco também vinha
James in the Rain and the Sunshine, um escalafobético
cinqüentão que, após o jantar, se sentava
solitário, esperava qualquer sujeito passar e o convidava
para fumar haxixe. Ninguém recusava, é claro.
Então ele ajeitava um cachimbo improvisado a partir
de uma caixinha de papelão, dava uns tragos com a
vítima e punha-se a fazer sinistros jogos de palavras
metafísicas, até o interlocutor se cansar
e ir embora. Consegui dialogar com James, o frito, por mais
de uma hora. Com fumaça nas pleuras não era
assim tão difícil.
Entretanto a taça “Rainbow
Figuraça do Gathering” vai para Budgie, um
russo criado em Moçambique que andava pelado para
cima e para baixo o dia inteiro, todos os dias da semana.
No máximo, um casaquinho à noite. Era o próprio
rebento da Era de Aquário: vivia recolhendo assinaturas
para petições pela libertação
de vítimas de governos opressores do mundo e cantava
uma música sobre o apartheid de Joanesburgo. No dia
de ir embora da Família, não teve quem não
comentasse o estranhamento que Budgie causava usando calças
compridas, camisa e tênis.
Os pontos informais de alimentação
– aqueles que dependem do fornecimento individual
de ingredientes, invariavelmente comprados em Arapiranga
– eram focos certeiros da social. A Canadian Tippy,
por exemplo, reunia a maioria de canadenses e europeus.
No dia em que dispensei o Main Circle para fazer o “circuito
gastronômico alternativo” do gathering, Brother
Bear, um adorável gorducho de Quebec, me preparou
crepes de mel e goiaba, enquanto uma linda francesa de topless
e turbante desenhava meu retrato. Ao lado, um garoto suíço
tricotava uma manga para sua camiseta puída; um italiano
e um turco trocavam impressões sobre a Amazônia
(grande parte dos rainbows viajava pelo Brasil antes do
encontro); e todos nós tomávamos chai. Mas
naquela noite, fugindo aos costumes internacionalistas do
pedaço, a Canadian Tippy foi dos integrantes do ENCA
brasileiro, que entoavam canções da União
do Vegetal enquanto estouravam pipocas na panela. Muita
gente do Vale do Capão no local.
Outros lugares de esquema semelhante agrupavam
diferentes tribos. A padaria, por exemplo, era o pico da
larica da madrugada, onde os americanos Chris, Brian e Ian
assavam cookies, pães e bolos.
Ficava tão lotado a noite inteira que se assemelhava
ao clima de um bar metropolitano. Havia, ainda, pelo menos
dois Chaishops: um secreto, escondido no meio do mato, onde
os grupos eram pequenos e silenciosos; e um “oficial”,
que em pouco tempo acabou virando abrigo para os “micróbios”,
aquela parcela mais, digamos, irreverente de hippies.
Aliás, era comum não se ter
barraca de camping. Alguns dos numerosos israelenses presentes
acabaram improvisando uma tenda coletiva com lonas pretas,
batizada por eles mesmos (muito apropriadamente!) de “favela”.
O que, no final das contas, contou com a aprovação
de todas as mulheres do gathering, já que assim o
Dorian Gray da Família, Nir David, cruzamento de
Apolo com Eros sem a arrogância de Narciso, não
tinha onde se esconder. Como estava próxima ao “bairro
israelense”, e conseqüentemente à “favela”,
a Anarquia Feminina freqüentemente se acomodava para
simplesmente observá-lo à distância.
–
Harry – disse Basílio – Dorian Gray é
um simples motivo de Arte para mim.
(“O Retrato de Dorian Gray”,
Oscar Wilde)
LEIA
A CONTINUAÇÃO >>>