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Novo jazz, novos caminhos
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A história social do jazz é interessante o suficiente para ser comparada com o momento atual da cena downtempo brasileira. O jazz nasceu em comunidades negras da região de Nova Orleans por volta de 1900 e, durante seu desenvolvimento inicial, recebeu diversas influências americanas brancas, de raízes européias. E se não fosse por essa miscigenação de origens ainda passaria muito tempo no limbo musical - foi só de 1915 em diante que passou a ser considerado um estilo próprio. Por ironia da história, hoje batemos de frente com essa mistura de origens - a mistura das bases de música eletrônica com os metais do jazz, o ritmo sincopado (uma quebra no ritmo, muito utilizada no breakbeat) popularizado pelo jazz e pelo funk setentista, os vocais negros a la James Brown. Certo, mas e aí?
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E aí que o nujazz, os grooves e o nufunk também estão abrindo seu espaço por aqui, aos poucos. E não falo isso sem base. O primeiro dos pontos é a profissionalização marcante da cena downtempo, que tem muitas de suas raízes em chill-outs de raves psicodélicas e em outros "guetos" da música eletrônica, mas vem criando sua própria cena e atingindo um público bem diferente: pessoas mais velhas, de cultura mais vasta, caracteristicamente urbanas, que já apreciavam o lounge e outras vertentes de downbeat e agora se deparam com o novo. Mesmo progresso que fez o jazz, que foi subindo de conceito por décadas, até se tornar uma música que atingia as camadas populares e elitizadas ao mesmo tempo.
A fácil identificação do funk e do jazz com quem é de fora da cena eletrônica é outro ponto mais que positivo. Prova disso é a aceitação dos novos grooves por projetos diversos da noite paulistana, como a Outlaw (minimal, breakbeat, nujazz, grooves e o que der na telha), Tododomingo (projeto gratuito para as tardes domingueiras na Casa das Caldeiras) e Voyage (projeto mensal de deep house, grooves e nujazz).
Há também noites únicas, como as iniciativas da Royal Soul Records durante todo o ano. O clima de pista que os DJs do estilo conseguem atingir também chegou ao Seu Justino e ao Loveland, bar do Lov.e. O tradicional clube de São Paulo, aliás, dará lugar a um clube de Jazz instrumental, Nujazz e House. É um bom recomeço. Digo isso porque nem tudo é belo nessa história.
Ao fim de março, o lounge iDch anunciou a pausa temporária de suas atividades noturnas. O fechamento da casa - que é tão importante para a cultura paulistana de downbeat quanto o Lov.e foi para o techno, dnb e outras vertentes de eletrônico - deixou a cidade sem uma referência artístico-musical de peso. Mas improvisamos e, quando um projeto saiu de cena, outros mais surgiram com ânimo renovado. Vamos fazer outro paralelo: o jazz é um estilo muito difícil de explicar e definir, mas improvisação é uma das marcas que o caracterizam.
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Não há razão para qualquer tipo de desânimo. Pelo contrário. O trabalho sério de gente comprometida fez com que novas referências viessem à tona. É o caso de gravadoras brasileiras que lançam releases do estilo, como a Royal Soul Records e a Lo Kik Records, e a produção criativa de artistas brasileiros (Trotter, Phunk Dub e Cine Mad In Chaos, por exemplo) já disponível em sites de alcance mundial, como a Beatport. De outro lado, também vão surgindo agências interessadas em apostar seriamente no estilo, como a 4AM.
A alteração do jazz original por novas influências sempre foi criticada por uma parte dos especialistas como "degradação". Há outros que dizem que o jazz sempre teve habilidade suficiente para absorver e transformar positivamente as influências dos mais diversos estilos de música - e eu sou dessa opinião. Não apenas na teoria musical, mas em tudo relacionado aos nossos esforços em popularizar o nujazz e os grooves. Por isso que minhas primeiras palavras também serão as últimas: novo jazz, novos caminhos.
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